Quinta Feira, 20 de setembro de 2018

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VANGUARDA TROPICAL

Mostra de Cinema de Ouro Preto vai reunir críticos, pesquisadores e cinéfilos para debaterem e assistirem a filmes marcados pelo trânsito entre manifestações artísticas e as influências do tropicalismo; a atriz Maria Gladys será a homenageada este ano

Considerada a “sétima arte”, o cinema foi apontado, poucos anos depois de sua criação, como a manifestação criativa que agregava elementos das outras estéticas. A relação da imagem com o movimento se tornou o amálgama de literatura, teatro, fotografia, artes plásticas e arquitetura. No Brasil, o momento mais intenso dessa mistura, que extrapolou os conceitos para chegar na prática, se deu ao final dos anos 1960: foi na explosão do movimento tropicalista, conjugada ao ápice da repressão militar na ditadura, que a arte do país passou a responder com intensidade.

 

O eixo central da Temática Histórica da 13ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, a ser realizada entre 13 e 18 de junho na cidade histórica mineira será “Vanguarda tropical: cinema e outras artes”.O propósito é levar ao evento filmes longas e curtas-metragens, debates, encontros e discussões que convidem o público a compreender as relações do cinema brasileiro com seu passado a partir das imbricações com variadas outras formas de expressão. A curadoria da Temática Histórica, um dos eixos da CineOP, está a cargo de Francis Vogner dos Reis e Lila Foster.

 

“A proposta deste ano surgiu a partir de um conjunto de filmes e de cineastas que trabalharam no entrecruzamento do cinema com outras artes, numa perspectiva estética muito marcada pelo experimentalismo e por produções que não se restringiram, na sua circulação, ao campo do cinema”, define Lila Foster. No contexto da época, entre os anos 1960 e 1980, músicos, artistas plásticos e escritores se aventuraram na criação de imagens e sons de maneiras singulares e completamente fora dos padrões e do mercado audiovisual. Sem compromissos comerciais e com o sentimento maior de extrapolação expressiva, nomes como Jorge Mautner, Hélio Oiticica, Sérgio Ricardo, Torquato Neto e tantos mais pegaram em câmeras e fizeram filmes até hoje únicos e surpreendentes.

 

A programação vai apresentar e discutir este rico movimento da cultura cinematográfica brasileira, que se desenvolveu em um momento obscuro da vida política e social do país – o regime militar e a implantação do Ato Institucional N° 5 (AI-5) em 1968. Neste contexto que se insere a homenagem à atriz Maria Gladys, cuja imagem e presença foi destaque do Cinema Novo e cinema marginal nos anos 1960 e 1970.

 

“Temos o trabalho de músicos que se valem do cinema, como é o caso de O Demiurgo, de Jorge Mautner, filmado no exílio. Tem ainda a presença de artistas visuais que passaram a utilizar o cinema como forma de expressão artística, caso de Nelson Leirner, com Homenagem a Steinberg; Iole de Freitas, com Light Works; e Anna Maria Maiolino, com X, dentre outros”, enumera a curadora, Lila Foster

 

A maior parte dos títulos a serem exibidos na 13ª CineOP foram filmados como reação ao cenário político da época. “Esses trabalhos serviam de resistência ao regime militar e como proposição de novas corporalidades na tela. São filmes performáticos, dissonantes e de intensa provocação”, diz Foster.

 

Francis Vogner, outro curador da Temática Histórica, lembra que o ano de 2018 marca cinco décadas do lançamento de Tropicália, o disco que reuniu os músicos Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé aos poetas Capinam e Torquato Neto e ao maestro Rogério Duprat. “É uma data paradigmática para a radicalidade na arte brasileira, com forte intervenção em seu próprio tempo histórico e proposições formais até então inéditas”. O tropicalismo torna-se a grande referência artística brasileira, e o cinema o acompanha com a presença maciça de criadores de várias áreas e de nomes que se legitimaram através do próprio audiovisual, como Rogério Sganzerla e Julio Bressane.

 

A ideia de Vanguarda Tropical presente na proposição da Temática Histórica na CineOP aparece ainda na retomada do antropofagismo do escritor Oswald Andrade (1890-1954), ícone do modernismo dos anos 1920 que se torna a grande referência de toda a geração tropicalista. “Com a participação de concretistas e neoconcretistas, de pintores e de escritores, entre outros, o cinema se torna o espaço de trânsito entre todas as artes que eram produzidas no período”, diz Francis.

 

HOMENAGEM À ATRIZ MARIA GLADYS

 

Em sintonia com o tema da Vanguarda Tropical, a 13ª CineOP escolheu a atriz Maria Gladys para ser a homenageada do evento. Figura lendária no meio audiovisual brasileiro, nascida no Rio de Janeiro em 1939, ela reúne, em 60 anos de carreira, todo o sentimento de uma geração de artistas marcada pela liberdade, performance e resistência ao status quo. “Gladys tem no corpo e na sua presença a marca de uma época inteira e de todos esses trânsitos que estaremos discutindo na CineOP”, destaca o curador Francis Vogner dos Reis.

 

A atriz começou no teatro, em 1959, na encenação de O Mambembe no Teatro Municipal do Rio, com texto de Arthur Azevedo e tendo como colegas de elenco Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto e Ítalo Rossi. Circulando no meio artístico, conheceu diretores de teatro e de cinema, logo enveredando pelas duas áreas graças à sua expressividade.

 

Gladys explodiu ao ter o grande papel feminino em Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra, que lhe valeu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. O sucesso a fez se aproximar ainda mais do Cinema Novo, mas sua versatilidade e ousadia a encaminharam naturalmente para o Cinema Marginal, nos anos 1970. Naquele ambiente ela encontrou um jeito único de filmar e performar, aprimorando o estilo iconoclasta de sua presença em tela.

 

Ao longo dos anos, trabalhou com Julio Bressane (O Anjo Nasceu, 1969; Cuidado Madame, 1970), Rogério Sganzerla (Sem Essa, Aranha, 1970) e Neville D’Almeida (Piranhas no Asfalto, 1971). Posteriormente, Gladys sempre foi se ajeitando dentro de cada contexto de produção, emplacando grandes personagens em filmes tão distintos quanto Anchieta, José do Brasil (Paulo César Saraceni, 1977),Bar Esperança (Hugo Carvana, 1983), Brás Cubas (Julio Bressane, 1985), Um Filme 100% Brasileiro (José Sette, 1985), Se Eu Fosse Você (Daniel Filho, 2006) e Febre do Rato (Cláudio Assis, 2012).

“Assim como temos os cineastas da invenção, a Maria Gladys é uma atriz de invenção, com uma forma toda singular de se expressar e se entregar aos papéis”, destaca Francis. Em 2008, Gladys foi filmada por Paula Gaitán em Vida, documentário poético que resgata suas memórias e seu talento em imagens do passado e do presente de uma longa trajetória e que será exibido na programação da 13ª CineOP.

 

A homenagem será prestada na abertura da 13a CineOP, no dia 14 de junho (quinta-feira), às 20h30, no Cine Vila Rica, com a entrega do Troféu Vila Rica. Em tributo a ela, que estará presente no evento, serão exibidos o curta-metragem Maria Gladys, uma Atriz Brasileira (Norma Bengell, 1980) e o longa Sem Essa, Aranha (Rogério Sganzerla, 1970). O primeiro, com apenas uma cópia de 35mm em acervo, foi digitalizado pela organização do evento especialmente para essa exibição em DCP.

 

Além dos dois filmes na abertura, a homenagem a Maria Gladys inclui, ao longo da programação, as exibições dos filmes Vida, de (Paula Gaitán, 2008 e a pré-estreia de Quebranto, de José Sette, 2017 e uma roda de conversa com a atriz na qual ela vai comentar e refletir sobre seu percurso profissional ao lado do cineasta Neville d’Almeida, que dirigiu Gladys em diversos filmes, como Rio Babilônia (1982) e Matou a família e foi ao cinema (1991).

 

 

FILMES | MOSTRA HISTÓRICA

 

 

 LONGAS

 

CAVEIRA MY FRIEND – de Álvaro Guimarães- RJ

O DEMIURGO, de Jorge Mautner- RJ/SP

VERA CRUZ, de Rosangela Rennó –

 

CURTAS

 

A FILA, de Kátia Maciel – RJ

À MEIA NOITE COM GLAUBER, de Ivan Cardoso – RJ

ALMA NO OLHO, de Zózimo Bulbul – RJ

BRASIL, de Rogério Sganzerla – SP

DAS RUÍNAS A REXISTÊNCIA, de Carlos Adriano – SP

HOMENAGEM A STEINBERG – VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA DE STEINBERG: AS MÁSCARAS Nº 1, de Nelson Leirner – SP

LIGHT WORK, de Iole de Freitas

LUA DIANA, de Mário Cravo Neto – BA

O ATAQUE DAS ARARAS, de Jairo Ferreira – SP

O SOM OU TRATADO DE HARMONIA, de Arthur Omar – RJ

TERROR DA VERMELHA, de Torquato Neto – PB

TRIUNFO HERMÉTICO, de Rubens Gerchman – RJ

VER OUVIR, de Antonio Carlos da Fontoura – RJ

X, de Anna Maria Maiolino

 

 

SOBRE A CINEOP

 

Idealizada e realizada pela Universo Produção em edições anuais e consecutivas, a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto é uma mostra audiovisual com alcance nacional e internacional que estrutura sua programação em três temáticas de atuação: preservação, história e educação. Chega a sua 13ª edição de 13 a 18 de junho de 2018 reafirmando o propósito de ser instrumento de reflexão e luta pela salvaguarda do patrimônio audiovisual brasileiro em diálogo com a educação e em intercâmbio com o mundo. Trata-se de uma proposta inédita no circuito de mostras e festivais do Brasil a enfocar o cinema como patrimônio, a história, memória em interface com o cinema contemporâneo e ações educacionais. Oferece uma programação abrangente e gratuita com homenagensexibição de filmes brasileiros em pré-estreias, retrospectivas e filmes restaurados (longas, médias e curtas), mostra educação, oficinas, debates, seminário, mostrinha de cinema, sessões cine-escola e atrações artísticas. Realiza anualmente o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros e o Encontro da Educação: Fórum Rede Kino.

 

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Link para fotos

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