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Confeitaria Colombo: um patrimônio dos cariocas

Quem nunca ouviu a frase: “o freguês tem sempre razão”? O que poucos sabem é que seu autor foi o português Manuel José Lebrão, um dos fundadores da Confeitaria Colombo, no centro do Rio de Janeiro. Com essa visão empresarial, e influenciado pelos valores culturais e estéticos da Belle Époque, Lebrão, como era conhecido, cultivou a clientela e fez do seu pequeno café, inaugurado em 1894, um marco da gastronomia e da arquitetura cariocas. Hoje, a Colombo é um dos principais pontos turísticos da cidade. Está tombada como patrimônio material pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultura (NEPAC) e como patrimônio imaterial, pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Sua importância é tamanha que uma das estações do VTL – Veículo Leve Sobre Trilhos -, que liga a região portuária do Centro da cidade, recebeu o nome de Estação Colombo.

Para alcançar tudo isso, Lebrão não mediu esforços. Os atrativos  começaram com a decoração Art Nouveau, composta por espelhos de cristal da Antuérpia, cadeiras de jacarandá e palhinha assinados por Antonio Borsoi e mesas com pés de ferro e tampo de opalina azul, depois substituídas por mármore.  Isso sem falar nos famosos vitrais, incluindo a clarabóia, e o elevador – um dos primeiros do Rio de Janeiro – tudo trazido da França. Outro chamariz estava nas guloseimas. Caso da marmelada, inicalmente importada e depois verticlmente produzida pela Colombo (da plantação do marmelo,em Teresópolis, ao preparo do doce na própria confeitaria); ou do tradicional biscoito artesanal Leque, vendido nas famosas latas azuis; ou, ainda, do Pastel de Nata e da Coxinha Creme.

Reduto de artistas e intelectuais

Mas talvez o maior diferencial da Colombo em relação aos outros cafés, também sofisticados, da época, tenha sido a presença constante de intelectuais, escritores e outros artistas. Sua frequência era estimulada por Lebrão, que, a fim de mantê-la, aceitava alguns excessos de comprtamento e até calotes criativos, como os que substituiam o pagamento da conta por um poema ou simplesmente por um versinho. A tolerância de Lebrão com os artistas é confirmada por autores de livros sobre a confeitaria.

Por causa desse bom relacionamento de seu dono com os intelectuais, a confeitaria acabou sendo elevada à condição de “sucursal da ABL”, a Academia Brasileira de Letras. É o que dizem os versos do soneto “Hino à Dentada”, escrito em uma de suas mesas pelo jornalista Emílio Menezes, com a intenção de lhe arrancar um empréstimo:

“Lebrão, tu sabes que a confeitariaColombo é verdadeira sucursal

Da nossa muito douta Academia

Mas sem cheiro de empréstimo oficial.

Cerca-te sempre a simpatia

De todo literato honesto e leal

E tu vais te tornando dia a dia O mecenas de todo esse pessoal.

Nisto mostras que és homem de talentoQue não cuidas somente de pasteis
Nem de lucros tirar cento por cento.

Atende, pois, a um dos amigos fiéis

Que está passando por um mau momento

E anda doido a cavar trinta mil-réis…”

A Colombo foi ponto de encontro, também, de personagens ainda mais famosos como Machado de AssisChiquinha Gonzaga,Assis Chateaubriant e até do presidente Getúlio Vargas, mas a personalidade mais lembrada por quem viveu aqueles tempos áureos talvez seja Olavo Bilac. Ele  tornou-se adepto da confeitaria depois de um desentendimento no Café Pascoal, que frequentava anteriormente. Em sua companhia, transferiram-se, também, escritores e jornalistas como Lima BarretoJosé do Patrocínio e Luís Murat

Contam os memorialistas da confeitaria que Bilac chegava à Colombo diariamente às cinco da tarde e era tão pontual que muitos funcionários aproveitavam para acertar os próprios relógios quando o escritor apontava na porta da loja. Mas se havia hora exata para a chegada, o mesmo não acontecia com a saída porque a conversa, as trocas literárias e os debates políticos, muitas vezes temperados com humor e sarcasmo, estendiam-se noite adentro.

Embora os encontros na Colombo fossem fartamente animados pelas conversas, a confeitaria também oferecia música e seu salão tem um lugar de honra na carreira de ninguem menos que o festejado Heitor Villa-Lobos. Conta-se que, ao ficar viúva, sua mãe, Dona Noêmia, passou a lavar e passar toalhas de restaurantes e era ele quem fazia as entregas. Por conta disso é que teria conhecido os músicos da Colombo e entrado para sua orquestra, onde tocou violoncelo.

Como reduto de escritores, artistas e intelectuais, a Colombo foi por vezes comparda ao café parisiense Les Deux Magots, criado cerca de dez anos antes e famoso por ter sido frequentado, em diferentes épocas, por intelectuais e artistas internacionalmente famosos como Arthur RimbaudStephane MallarméAndré GideAlbert Camus,James JoyceStephane MallarméSimone de BeauvoirJean-Paul SartreErnest Hemingway, e Bertolt Brecht para citar apenas alguns.

Uma confeitaria de todos?

Além da tolerância com artistas e intelectuais, a estratégia de marketing do comerciante ia ainda mais longe: ele proibia os garçons de receberem gorgetas, segundo alguns porque não considerava uma boa atitude para com os clientes, segundo outros, para evitar a concorrência entre os garçons. Em troca, pagava comissões por venda – o que fazia com que todos se esforçassempara atender melhor e, com isso, vender mais. Os funcionários eram beneficiados, ainda, com uma participação nos luros da empresa, que no início incluia também um armazém. 

A Colombo nasceu simples, em uma pequena sala térrea. Somente em 1922 é que foi ampliada, Na reforma, a confeitaria ganhou um segundo andar, a imponente decoração Art Noveau, e tornou-se um dos lugares mais cobiçados da cidade. Ciente disso, Lebrão tentou adaptar-se a todos os públicos. Aos que não tinham condições de sentar-se à mesa para um completo chá das cinco, ele oferecia os balcões, onde era possível comprar doces avulsos, na quantidade que estivesse ao alcance do cliente. 

Os públicos dividiam-se também por horários. Até o fim da tarde, a Colombo recebia mulheres da sociedade. À noite, o ambiente mudava e  permaneciam apenas os homens com uma ou outra mulher mais rebelde, como era o caso de Chiquinha Gonzaga. 

Do século 19 aos dias de hoje  

A Colombo passou por várias fases desde que foi fundada por Lebrão e por seu sócio Joaquim Borges de Meireles. A segunda, e talvez mais promissora, foi a dos primeiros depois da reforma. Joaruim Meireles tinha voltado para Portugal e vendido sua parte a Lebrão, que colocava em prática seus conhecimentos natos de marketing antecipando-se aos concorrentes. 

Mais tarde, em 1944, a Colombo ganhou uma filial em Copacabana, que, embora mais moderna, mantinha o requinte da matriz, mas essa loja fechou as portas em 2003. 

Ao longo da história, vários produtos foram consolidando, ainda mais, o nome da confeitaria, entre eles a Geleia de Mocotó, velha conhecida de uma geração de brasileiros. Com a primeira mudança de proprietário, muitos itens saíram do cardápio mas alguns deles foram recuperados quando a confeitaria foi novamente vendida. Caso do biscoito Leque, de produção artesanal.

Atualmente, a Colombo tem filiais no Forte de Copacabana, no Centro Cultural Banco do Brasil e no aeroporto de Tom Jobim, mas para conhecer a Colombo histórica e ter uma ideia do que ela representa para o Rio de Janeiro, é preciso ir à matriz, na Rua Gonçalves Dias. 

Texto: Sylvia Leite Jornalista – MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes Fotos: Sylvia Leite