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Em Caxias do Sul (RS), atividade lúdica divulga patrimônio histórico

Por João Zuccaratto*

Em Caxias do Sul (RS), atividade lúdica divulga patrimônio histórico
A Cidade de Colatina, no Centro do Estado do Espírito Santo, às margens do Rio Doce, no seu início,
foi denominada Colônia Antônio Prado, homenagem ao ministro da Agricultura de dom Pedro II responsável pelos projetos de colonização com imigrantes vindos da Europa

Estive na Cidade de Caxias do Sul, polo de atividades especializadas em metal e mecânica do Estado do Rio Grande do Sul, para conhecer o parque industrial da encarroçadora de ônibus Marcopolo e, após, participar de evento voltado à promoção do Turismo na Serra Gaúcha.

Como tinha dia livre, fui conhecer a vizinha Cidade de Antônio Prado, por sugestão de um amigo da Cidade de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, onde vivo. Trata-se do João Alberto de Carli, profundamente envolvido na preservação da memória da imigração italiana.

Meu interesse inicial se deu por ela ter, como denominação, a identificação inicial do local onde nasci, a Cidade de Colatina. Nos seus primeiros momentos, foi batizada como Colônia Antônio Prado, também como homenagem a um ministro da Agricultura de dom Pedro II.

Tratava-se de Antônio da Silva Prado, grande fazendeiro paulista. No Governo Imperial, foi um dos maiores responsável por promover a atração e a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, distribuindo-os pelos Estados do Sul do País e também no Estado do Espírito Santo.

Diferentemente da ex-congênere gaúcha, a Cidade de Colatina ocupa região bem quente, no Centro-Norte da terra capixaba, junto ao Rio Doce, vítima do acidente na barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco, na Cidade de Mariana, Leste do Estado de Minas Gerais.

Antes de partir para lá, pesquisando no ambiente da Web, e conversando com moradores da Cidade de Caxias do Sul, descobri coisas interessantes sobre meu destino, relacionadas com a trajetória dos seus colonizadores, principalmente italianos, ali estabelecidos a partir de 1886.

Nas leituras, chamou atenção o Centro Histórico da Cidade de Antônio Prado apresentar 48 imóveis representativos daqueles momentos inicias da ocupação daquele espaço, tombados como patrimônio histórico nacional numa época na qual ainda não se dava muito valor a isso.

Viajei para lá sem ter ideia da ligação do meu contato local com todo este processo. Trata-se do entusiasta, mestre em Turismo e pesquisador Fernando Roveda. Logo ao chegar, me levou para um dos imóveis preservados, a Casa Giácomo Grezzana, construída entre 1906 e 1915.

Antes de seguir, um parêntesis: dos 48 imóveis, 46 são identificados por nomes, como a Casa Giácomo Grezzana, e têm sua história descrita em pequenas placas, instaladas à frente dos mesmos. Cada uma apresenta um pequeno texto, com versões nos idiomas Talian e Português.

Outro parêntesis: Talian é evolução do dialeto trentino dos imigrantes a partir da chegada ao Brasil e passado aos descendentes. Reconhecido como idioma no País, integra o currículo das escolas de primeiro e segundo graus em variados Municípios de diversos Estados da Nação.

A Casa GiácomoGrezzana sedia o projeto de Fernando Roveda, voltado aos alunos do ensino fundamental do Município de Antônio Prado, promovendo educação patrimonial e o valor da preservação da rica herança histórica com os quais convivem, desconhecida por muitosdeles.

Em paralelo, contribui para a recuperação de tradições já quase esquecidas, valorização das trajetórias dos antepassados, importância do aprendizado do idioma Talian — desde 2016, a segunda língua oficial do Município — e, principalmente a valorização da identidade local.

Após conhecer pontos turísticos, tive a oportunidade de acompanhar o encerramento de uma edição do projeto “Nosso Patrimônio, Nossa História”, na Escola Estadual de Ensino Médio Irmão Irineu —impressionam limpeza, conservação e organização existentes naquele colégio.

Numa sala do estabelecimento de ensino, enorme mapa impresso sobre lona estendido sobre o piso apresentava ruas do Centro Histórico da Cidade de Antônio Prado. E, ao longo das vias, sequências de maquetes construídas em papel representavam cada um dos imóveis tombados.

Elas foram montadas a partir de material integrante dos kits referentes ao projeto “Nosso Patrimônio, Nossa História”, entregues aos alunos no momento inicial da atividade — e do qual faz parte também textos referentes à história de cada um deles, assim como da cidade.

Além do material, com liberdade para cortar, montar e pintar, participarem de momentos de conscientização sobre a atividade, sempre sob orientação específica dos professores. No caso específico daquela turma do Quarto Ano, ali presente, a professora Patrícia Slongo Faccioli.

Detalhe importante: cada maquete estava posicionada devidamente sobre o ponto real onde o imóvel representado fica ao lado das vias. Como, no mapa, não há indicação neste sentido, isso foi decidido pelos alunos, inclusive com visitas aos locais, para não ocorrerem erros.

A professora Patrícia Slongo Faccioli, da Escola Estadual de Ensino Médio Irmão Irineu, localizada no Centro Histórico da Cidade de Antônio Prado, chegando com sua turma de alunos à Casa Giácomo Grezzana, sede do projeto desenvolvido por Fernando Roveda

Era o momento dos alunos, individualmente ou em grupo, retirarem seus trabalhos, colocando ponto final numa programação desenvolvida por muitos dias, inclusive com participação dos familiares, traduzindo nas pequenas obras momentos anteriores de discussão em sala da aula.

Conversando aqui e ali com as meninas e os meninos, percebia-se a animação de todos eles por terem alcançado sucesso. Alguns, inclusive, explicaram porque optaram por determinada construção e revelaram, ainda, ter recibo ajuda dos pais para conseguirem concluir a tarefa.

Percebi no orgulho expresso pelos adolescentes a importância de um projeto como o “Nosso Patrimônio, Nossa História”, promovendo ações de educação patrimonial nesta fase na qual deixam de ser crianças despreocupadas e, aos poucos, vão tornando-se adultos conscientes.

É ideia muito boa, precisando ser mais divulgada, inclusive para ser copiada, clonada, por outros Municípios ou regiões. Ficaria muito satisfeito disso acontecer no meu Estado, pois, além dos italianos, também foi colonizado por alemães, suíços, poloneses, pomeranos etc.

Ao final daquela experiência, me veio à memória parte do depoimento da pesquisadora Ana Meira, líder de levantamento cujo resultado levou à localização de 30 núcleos de imigração alemã e italiana no Estado do Rio Grande do Sul, desenvolvido durante todo o ano de 1983.

Este trabalho revelou a importância e integridade do acervo existente no Centro Histórico da Cidade de Antônio Prado, além de muita coisa espalhada pela Zona Rural, contribuindo para a decisão de tombamento do conjunto, incluindo a mancha de Mata Atlântica do seu entorno.

Sua fala está na descrição do verbete “Centro Histórico de Antônio Prado”, na Wikipedia, a enciclopédia aberta presente na Internet. Seus textos têm validade discutível, mas, no caso, isso é de somenos importância, como pode ser lido na reprodução do mesmo logo a seguir:

Os jovens adultos de hoje, que passaram pela experiência de educação patrimonial, veem Antônio Prado de maneira diferente. As crianças também. Um bom exemplo foi dado em tese de Mestrado sobre arte-educação, desenvolvida por professora que trabalhou com crianças pradenses durante dois anos. Como último exercício, ela pediu às crianças que desenhassem e descrevessem uma cidade ideal. Em todos os desenhos, o que aparece é Antônio Prado. E uma das crianças disse que queria morar em uma cidade que tivesse shopping center, interfones e… casas tombadas!