Hospitalidade hackeada no turismo e fronteiras digitais

Artigo discute como sistemas automatizados nas fronteiras afetam viajantes, mobilidade e o conceito de hospitalidade.

21 Set 2026 - 19:26
Atualizado: 16 dias atrás
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Hospitalidade hackeada no turismo e fronteiras digitais
Por Amina Welten Guerra e Rui Badaró A hospitalidade hackeada no turismo coloca em debate o uso de sistemas automatizados na análise de viajantes e nas autorizações de entrada em diferentes países. A discussão parte de uma situação cada vez mais associada às fronteiras digitais: decisões tomadas a partir de dados e índices de risco, com pouca ou nenhuma interação humana. Imagine planejar uma viagem — passagens, hotel e roteiro — e descobrir que a autorização de entrada foi negada sem uma explicação clara. Não por decisão direta de um cônsul ou agente de fronteira, mas após a análise automatizada de informações pessoais. Para os autores, esse cenário modifica uma das bases históricas do turismo: a hospitalidade.

Hospitalidade hackeada no turismo e as novas fronteiras

A hospitalidade é apresentada no artigo como um valor ligado ao ato de receber o estrangeiro, abrir a porta e proporcionar acolhimento. Em Minas Gerais, essa relação é associada à própria cultura e ao modo de receber visitantes. Ao mesmo tempo, sistemas eletrônicos de autorização e triagem de viajantes ganham espaço nas fronteiras. O texto cita a implantação do ETIAS pela União Europeia e os mecanismos adotados pelo Reino Unido, Estados Unidos e outros países como exemplos dessa transformação. Na análise dos autores, o viajante passa a ser tratado também como um perfil de risco, submetido ao cruzamento e à avaliação automatizada de informações. Isso levanta questões sobre transparência, possibilidade de contestação e participação humana nas decisões.

Conceito de hospitalidade hackeada

O conceito de “hospitalidade hackeada” foi cunhado por Rui Badaró em sua pesquisa de pós-doutoramento na Universidade de Coimbra. A expressão é utilizada para descrever a subversão da hospitalidade como categoria jurídica por sistemas automatizados de controle da mobilidade. Segundo a reflexão apresentada, dois turistas com o mesmo destino e intenções semelhantes podem enfrentar tratamentos diferentes de acordo com o passaporte e com os dados associados ao seu histórico de deslocamento. Para os autores, essa realidade afeta especialmente cidadãos do chamado Sul Global e faz com que a fronteira deixe de começar apenas no aeroporto ou no posto de imigração, passando a existir também nos processos digitais que antecedem a viagem.

Impactos para viajantes e para o setor de turismo

Na avaliação apresentada no artigo, as consequências podem atingir diferentes agentes do turismo. Recusas automatizadas podem provocar cancelamentos de viagens, afetar agências e operadoras e gerar insegurança para viajantes que não recebem explicações suficientes sobre uma decisão. A discussão, portanto, ultrapassa a tecnologia e alcança a própria relação entre turismo, mobilidade e acolhimento. Os autores defendem que destinos, empresas do trade turístico e viajantes participem desse debate e cobrem maior transparência nos sistemas utilizados pelas fronteiras. Entre os pontos defendidos estão o direito à explicação e a possibilidade de revisão humana das decisões automatizadas.

Hospitalidade mineira como contraponto

O artigo utiliza Minas Gerais como contraponto à lógica baseada exclusivamente em índices de risco. A hospitalidade encontrada nas cidades históricas, fazendas e relações cotidianas é apresentada como uma experiência baseada em encontro, escuta e presença humana. Para Amina Welten Guerra e Rui Badaró, preservar a hospitalidade como valor também significa discutir o futuro do turismo diante da crescente automatização das fronteiras. A reflexão termina com uma questão central: em um mundo no qual sistemas tecnológicos participam cada vez mais das decisões sobre mobilidade, a porta deve se abrir para pessoas ou apenas para dados previamente aprovados? A defesa dos autores é direta: a hospitalidade depende da dimensão humana e deve continuar fazendo parte das relações entre viajantes, destinos e sociedades.

Redação Jornal MG Turismo

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