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Pantheon: um templo aberto para o céu

Foto José Somovilla do Pixabay - Matéria Pantheon- BLOGLUGARES DE MEMÓRIA

Quem entra no Pantheon (ou Panteão), na área Antiga de Roma, não pode deixar de perceber um detalhe que é incomum à maioria dos templos, especialmente os mais recentes: no meio da cúpula, há uma abertura circular de nove metros de diâmetro pela qual o ambiente recebe luz natural. Acredita-se que esse óculo tenha sido projetado para que os romanos da época se comunicassem diretamente com a esfera divina sem qualquer intermediação humana. Hoje, o Pantheon pertence à Igreja Católica, mas sua abertura circular permanece carregada de significado simbólico e é usada anualmente em uma cerimônia especial no dia de Pentecostes.

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Durante a celebração, pétalas vermelhas são jogadas dentro do templo através do seu óculo, numa alusão à descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos de Jesus, ocorrida 50 dias depois da Páscoa. A chuva de pétalas é testemunhada por fiéis e curiosos do mundo inteiro, que participam da cerimônia atraídos não apenas pela religiosidade, mas também pela beleza e magia do espetáculo.

O óculo na história do Pantheon

Além de ter mantido sua importância simbólica desde o período considerado pagão até os dias de hoje, a abertura circular do Pantheon teria sido, segundo a tradição oral, de fundamental importância nessa transição. Conta-se que quando a Igreja Católica recebeu a posse do prédio, o lugar era tido pelos católicos como ‘a casa do diabo’ e nenhum cristão ousava sequer chegar perto. Depois de inúmeras tentativas sem sucesso de convencê-los de que não havia diabo nenhum no Pantheon, o papa da época teria usado um recurso cênico envolvendo o óculo para acabar com a crença.

Site Pantheon Divulgação - Matéria Pantheon - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Segundo as narrativas orais, o papa convidou os fiéis a visitarem o templo, onde assistiriam ao exorcismo do suposto morador demoníaco. Diante de todos os presentes, ele invocou as forças divinas para expulsarem o demónio daquela casa: Diavolo vattene (diabo vá embora). Nesse instante, um funcionário da igreja escondido num espaço subterrâneo usado para escoamento da água da chuva que entra pelo óculo*, queimou um monte de folhas, deixando a fumaça subir para o patamar do templo e escapar pela abertura circular. A ideia era convencer os fiéis de que o diabo havia se desintegrado e deixado o local. O truque deu certoe o Pantheon passou a ser frequentado pelos cristãos, transformando-se, depois, na Basílica de Santa Maria dei Martire (Santa Maria dos Mártires ou Santa Maria e Mártires).

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O relato parece bem convincente, mas traz imprecisões históricas pois Gregório Magno, que teria feito a encenação de exorcismo, foi papa entre 590 e 604 e o Pantheon só foi doado à Igreja no ano 609, quando o papa era Bonifácio IV.

Faz parte do simbolismo do óculo a variação de ângulos que a luz assume ao penetrar, através dele, no interior do templo, que ocorre a cada dia de acordo com o curso do sol. A ideia de comunicação direta entre os fiéis e os deuses ocorreria no momento em que a luz desce verticalmente, sem inclinação, como se ligasse o zênite ao centro do templo.

Uma esfera perfeita

Não é apenas o óculo que faz do Pantheon uma obra singular. Sua cúpula, com mais de 43,44 metros de diâmetro, é maior que a da Basílica de São Pedro e foi construída sem qualquer sustentação. Para aliviar o peso, que passa de 4.500 toneladas, a cúpula foi moldada em blocos que se assemelham a caixotes, com cavidades no centro. Houve também um escalonamento dos materiais, que são mais pesados embaixo e vão se tornando mais leves nas partes altas, onde se chegou a usar até pedra-pomes, conhecida por sua leveza e porosidade.

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Outra curiosidade é a coincidência de medidas entre o diâmetro da cúpula e a altura do templo, de forma que dentro do edifício caberia uma esfera perfeita. Para algumas religiões ou escolas místicas, especialmente as mais antigas, a esfera é um símbolo celeste, enquanto o quadrado simboliza a terra e o octógono marca a transição entre um e outro. No Pantheon, como em outras construções religiosas, a cúpula esférica é sustentada por uma estrutura intermediária octogonal.

Um templo de todos os deuses?

Existe a crença de que o Pantheon foi, originalmente, um templo de todos os deuses. Os defensores dessa tese apoiam-se no significado do nome, formado pela combinação do prefixo Pan, que significa todos, com o substantivo Theon, que significa deuses. Mas há controvérsias.

Em sua obra History of Roma, escrita no mesmo século, o senador romano Cassius Dio pondera que o nome Pantheon pode ter vindo do fato do prédio ter sido decorado com estátuas de muitos deuses, inclusive Marte e Vênus, ou por sua cúpula abobadada torná-lo semelhante ao céu.

Por Maros M r a z (Maros) - Matéria Pantheon - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Tito Lívio, em Ab urbe condita (“Desde a fundação da cidade”), também questiona a ideia de um templo de todos os deuses alegando que além dos sacrifícios e ritos serem específicos a cada um deles, as divindades precisavam ter templos separados para que ficasse claro qual delas tinha sido ofendida quando acontecesse algo como a queda de um raio.

Foto Szilas Wikimedia - Matéria Pantheon - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Ao derrubarmos a suposição de que o Pantheon foi um templo dedicado a todos os deuses, ficamos sem uma tese para substituí-la, pelo menos no que diz respeito à sua devoção. Resta-nos, então, a lenda segundo a qual o Pantheon foi construído no lugar onde Rômulo, fundador de Roma, foi colhido por uma águia e levado ao encontro dos deuses, onde se tornou o deus romano Quirino.


Um templo de arte

Depois que foi doado à igreja, na Idade Média, o Pantheon recebeu obras de arte entre as quais se destaca a pintura “Anunciação” de Melozzo da Forlì. O prédio passou a ser usado, ainda, como sede da Academia Pontifícia de Belas Artes e Literatura Virtuosa de Roma e para abrigar túmulos de reis e de artistas. O mais famoso é o do pintor Rafael, mas também encontram-se lá os restos mortais de outros artistas como o pintor Annibale Carracci, o compositor Arcangelo Corelli e o arquiteto Baldassare Peruzzi .

Imagem  R. Lanciani Domínio público Wikimedia - Matéria Pantheon - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O primeiro Pantheon foi encomendado por Marco Vipsânio Agripa, em 27 antes de Cristo, mas a versão atual foi erguida por Adriano, entre os anos 126 e 128 da nossa era. Sua doação à Igreja, em 609, pode ter sido a razão da boa manutenção que o coloca na condição da obra romana mais bem preservada.

*O prédio possui realmente um canal de drenagem para água da chuva. Para permitir que a água escoe, o piso da sala tem um declive de 30 centímetros. 

Pantheon – Trevi- Roma – Itália – Europa

Texto: Sylvia Leite

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Fonte: https://www.lugaresdememoria.com.br/2021/04/pantheon-um-templo-aberto-para-o-ceu.html?m=1