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Ponte Vecchio: uma charmosa mistura de estilos e memórias

Pouco se fala sobre isso, mas se prestarmos atenção, veremos que a famosa Ponte Vechhio, um dos símbolos da cidade italiana de Florença, e conhecida no mundo inteiro por sua singularidade, nada mais é que uma desordenada combinação de estilos, e, se pesquisarmos um pouco, veremos que ela é composta por pelo menos dois projetos arquitetônicos e inúmeros ‘puxadinhos’. A razão dessa charmosa mistura estética parece estar nas

Foto  idaho6556 do Pixabay - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

diversas utilizações que se fez da ponte ao longo da história, incluindo sua ocupação por estabelecimentos comerciais tão distintos como açougues e joalherias.

Até onde se sabe, a Ponte Vecchio original foi erguida em madeira, na Roma Antiga, provavelmente no século 1 Antes de Cristo. Depois de inundações, e consequentes reconstruções, sobre as quais pouco se sabe, a ponte chegou à sua  estrutura atual em 1345. Foi construída em pedra, com três arcos de sustentação, a partir de um projeto arquitetônico de autoria indefinida. A dúvida gira em torno de dois arquitetos: Neri di Fioravanti, a quem se atribui os projetos de algumas igrejas italianas, e Taddeo Gaddi, mais conhecido como pintor. Há quem diga que os dois trabalharam juntos e coube a Gaddi o papel de mestre construtor.

Foto Nicola Giordano do Pixabay - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Seja de quem for a autoria, o projeto já trazia originalidade. Foi provavelmente o primeiro no Ocidente a usar arcos rebaixados – um recurso arquitetônico que amplia a largura dos vãos e facilita o fluxo do rio, impedindo que a água e os detritos trazidos por ela se acumulem na ponte e pressionem sua estrutura, causando danos ou mesmo destruição.

 Os charmosos ‘puxadinhos’

Quase cem anos depois (1442) de

Foto Monica Volpin do Pixabay  - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

construída em sua versão definitiva, a Ponte Vecchio transformou-se no mercado de carnes e de peixes da cidade e isso fez nascer seu segundo fator de singularidade: os ‘puxadinhos’ sobre o Rio Arno.

A mudança dos açougues para a ponte foi determinada pelas autoridades sanitárias a fim de livrar as zonas residenciais do mau cheiro e do rastro deixado pelos açougueiros ao transportar ossos, espinhas  e restos de carnes até o rio Arno, onde eram descartados. E foram os açougueiros e

Foto Monica Volpin do Pixabay  - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

peixeiros que construíram, de forma desordenada, e ao modo dos famosos puxadinhos brasileiros, as estruturas que se projetam sobre o rio e dão um interessante volume às paredes da ponte.

Há quem diga que os açougueiros precisaram construir essas salas, para abrigar os ambientes de serviço, deixando à mostra no corredor da ponte apenas os produtos já prontos para venda. Outra versão afirma que os ‘puxadinhos’ começaram a ser feitos porque as lojas, que inicialmente pertenciam ao Município e eram alugadas, foram vendidas a seus ocupantes e eles se sentiram no direito de ampliar seus espaços, construindo inclusive quartos, terraços e até mesmo casas completas.

O Corredor Vasari

No século seguinte (1565), foi adicionado à ponte mais um elemento incomum: uma passagem elevada por cima das lojas, que faz parte de uma estrutura bem maior denominada Corredor Vasari ou  Corridoio Vasariano, como se diz em Italiano. A passagem recebeu esse nome por ter sido projetada por Giorgio Vasari, mas seu verdadeiro dono era o governante da época, o Grão Duque Cosimo I de ‘Medici. O corredor liga o Palácio Piitti (ou Palazzo Pitti), residência  da família Médici na época, ao Palácio Vecchio (Palazzo Vecchio) e à atual Galeria Uffizi, onde funcionavam, respectivamente, a sede do poder local e seus escritórios administrativos. 

Foto Guy Dugas por Pixabay   - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O propósito de Cosimo era poder se locomover entre os três pontos de forma privada, e, segundo se conta em Florença, ele não visava apenas obter conforto e privacidade, mas também proteção pois se sentia inseguro por não não contar com o apoio de uma parte significativa da população, entre outras razões, por ter substituído a República de Florença.

A obra foi concluída no tempo record de menos de seis meses. A razão da pressa teria sido, principalmente, o casamento de Francesco, filho de Cosino, com Johanna da Áustria. Cosimo queria impressionar os

Imagem  Centro Vasco de Arquitetura - Matéria onte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

austríacos com seu corredor elevado, além de garantir a segurança de todos ao transitar pelo centro da cidade. A obra não só impressounou os convidados reais, como seguiu impressionando a todos nos séculos seguintes. 

Pode ter sido obra sua, também, a transformação da Ponte Vecchio em um mercado de ouro e de jóias que permacece até hoje, exercendo fascinio sobre os visitantes por reunir de antiguidades aos designs mais modernos e inovadores. Mas isso custou a expulsão dos açougues e peixarias que já ocupavam a ponte há mais de um século. O motivo da mudança foi o incômodo provocado aos Médici pelo cheiro de carne e de peixe quando eles cruzavam a ponte dentro do Corredor Vasari. Algumas fontes afirmam, no entanto, que essa substituição só ocorreu em 1596, determinada por Ferdinando I, o quarto filho de Cosino.

Outros fatos curiosos

Curiosidades não faltam na história da Ponte Vecchio. Uma das mais conhecidas é o surgimento do termo ‘bancarrota’. Conta-se que na época dos açougues e peixarias, quando um comerciante não conseguia pagar suas dívidas, os guardas quebravam suas instalações e dizia-se que ele teve seu ‘banco roto’, o que em Português acabou ficando banca rota ou bancarrota.

Mais uma história surpreendente: é possível que a

Foto  DEZALB do Pixabay - Matéria Ponte Vecchio - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

beleza e singularidade da Ponte Vecchio a tenha livrado da destruição durante a Segunda Guerra Mundial, quando as tropas nazistas bombardearam todas as outras pontes da cidade. Acredita-se que a ordem de poupá-la tenha vindo do próprio Adolph Hitler, que teria visitado o Corredor Vasari algum tempo antes, a convite do dirigente fascista Benito Mussolini.

Outra curiosidade é o hábito de pendurar cadeados na ponte, especialmente nas grades que cercam a estátua de Benvenuto Cellini – um artista que foi considerado o ourives mais importante de Florença. O hábito é inspirado na crença do amor eterno. Acredita-se que, ao fixar os cadeados, os casais adquirem a garantia de que permanecerão unidos para sempre. Ao longo dos séculos, essa tradição trouxe problemas à administração municipal, que precisava fazer a retirada permanente dos cadeados. A fim de minimizar o problema, foi criada uma multa pesada para quem for pego fixando cadeados em qualquer parte da Ponte Vecchio.

A estátua de Benvenuto Cellini foi feita em bronze pelo escultor florentino Raffaello Romanelli, que se tornou conhecido no mundo inteiro pela autoria de bustos de pessoas famosas. O monumento está localizado na parte central da ponte, no único trecho em que não há lojas e os visitantes podem admirar o Rio Arno. 

Ponte Vecchio – Rio Arno – Florença – Toscana – Itália – Europa

Texto: Sylvia Leite
Jornalista – MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Fotos:

(1) TeeFarm / Pixabay(2) idaho6556 do Pixabay(3) Nicola Giordano do Pixabay(4) Monica Volpin do Pixabay(5) власенко, Wikimedia
(6) Guy Dugas por Pixabay
(7) Centro Vasco de Arquitectura(8) user32212 por Pixabay(9)  DEZALB do Pixabay
Referências:

Site Florence Museum

Matéria de Sylvia Leite, publicada originalmente no blog ‘lugares de memória’. Acesse a publicação original Ponte Vecchio: uma charmosa mistura de estilos e memórias