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Quilombolas comercializam cestas com produtos da agricultura familiar

Projeto em Diamantina garante renda e trabalho durante a pandemia da Covid-19

Uma experiência diferente de comercialização da produção de agricultores familiares no Vale do Jequitinhonha ilustra bem como a Emater-MG e esses grupos estão lidando com os desafios impostos pela Covid-19. A suspensão de feiras livres em alguns municípios para conter a disseminação da doença está sendo enfrentada de formas alternativas pela empresa, conforme a realidade de cada lugar de Minas Gerais. Preservar a renda de povos e comunidades tradicionais, como as quilombolas, por exemplo, tem sido uma das preocupações Emater-MG, vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

É o caso do município de Diamantina, onde três das quatro comunidades quilombolas que a Emater-MG atende estão comercializando suas produções, ao lado de outros segmentos da agricultura familiar local. A empreitada consiste na venda de cestas prontas, com os produtos escolhidos e empacotados pelos próprios agricultores familiares. Com a medida evitam-se as aglomerações de pessoas das feiras convencionais e que podem ser locais de transmissão do coronavírus, colocando em risco a saúde de agricultores e consumidores.

Cada cesta, com cerca de até dez itens, tem produtos do tipo: tempero verde, verduras, legumes, mandioca e frutas, entre outros. A unidade é vendida a R$ 28,00 e o comprador precisa buscá-la, no espaço cultural da Casa do Elefante, onde ficam as mercadorias, entre 10 e 18h, nas terças ou quintas-feiras, dependendo da semana. Os organizadores não retiram e nem trocam nenhum componente da cesta. “Cada item representa uma ou mais famílias de agricultores e nosso projeto tenta contemplar o maior número de pessoas que trabalham nas roças”, destaca o extensionista agropecuário do escritório local da Emater-MG, em Diamantina, Leandro Oliveira.

Segundo Oliveira, o consumidor também pode receber a cesta em casa, pagando uma taxa de R$ 4 ou mais, de acordo a distância dos bairros, uma vez que o serviço é terceirizado. Os pedidos podem ser feitos pelo WhatsApp (31- 99662-1057), em horário comercial, inclusive aos domingos. E o pagamento pode ser em dinheiro, na hora da retirada ou por transferência bancária antecipada.

Rodízio

Leandro Oliveira informa que, no momento, estão participando do projeto de comercialização das cestas as comunidades quilombolas de Mata dos Crioulos, Santa Cruz e Vargem do Inhaí, mas a proposta é incluir todas, como São João da Chapada e Quartel do Indaiá.

Por força do hábito, o técnico e os agricultores participantes, ainda chamam de feira a nova modalidade de comercializar os produtos da agricultura familiar local. “A feira funciona em sistema de rodízio para dar oportunidade a todos, mas é dada preferência a produtores que não utilizam agrotóxicos em suas plantações”, diz Leandro.

 Ainda de acordo com o extensionista agropecuário, Diamantina tem cerca de 100 comunidades rurais, entre quilombolas e outros agricultores familiares, mas nem todas aderiram à iniciativa de vendas de cestas. Oliveira calcula que a média de participantes por semana, varia entre 10 a 15 famílias. Segundo ele, o evento está completando a oitava edição e sua realização é resultado da

bem-sucedida parceria entre a Emater-MG, prefeitura municipal e iniciativa privada.

“A Emater faz o papel de assistência técnica, organizando e preparando as famílias para as regras de participação. Também orienta como os produtos devem ser apresentados, dando dicas de embalagens e montagem das cestas. A prefeitura ajuda na organização do trabalho, no transporte, emissão de documentos e nas visitas às comunidades para auxiliar. Contamos ainda com a contribuição da Casa do Elefante, que está cedendo seu espaço cultural para os produtores entregarem suas cestas, sem nenhum custo”, explica.

Quilombolas aprovam

A agricultora da comunidade quilombola Vargem do Inhaí, Elisângela Maria Pires, está feliz em participar do projeto e aproveita para fazer um apelo: “É com muito prazer que estamos levando nossos produtos para a Casa do Elefante, em Diamantina, e eu peço a todos que nos ajudem, comprando nossas cestas”. Lamentando o momento de dificuldade de comercializar os produtos, em função da Covid-19, Elisângela agradece os parceiros, pela viabilização da nova forma de vender o que a família produz: “Quero agradecer à Casa do Elefante, pela oportunidade e parceria. Também agradeço a Emater e a prefeitura”.

Integrante da coordenação da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex) e apanhadora de flores sempre-vivas, Maria de Fátima Alves, mais conhecida pelo apelido de Tatinha, elogia o projeto: “É uma boa iniciativa da Emater e parceiros e tem sido importante para as famílias que fornecem as cestas e também para as que recebem alimentos de alto valor nutritivo. Nossa gratidão à Emater, às organizações de base comunitária, à Casa do Elefante, parceiro que divulga e distribui, e a todos envolvidos nesta bela iniciativa”.

Para Tatinha, natural da comunidade quilombola São João da Chapada, embora resida atualmente em Diamantina, o projeto das cestas tem grande potencial de aprendizado para todos os elos da cadeia de produção. “As comunidades aprendem a se organizar e preparar para um mercado e o abastecimento local. Consumidores por valorizar o alimento saudável, livre de agrotóxicos e com valor agregado. E enfim, a sociedade em geral, por substituir a importação de alimentos; reconhecer as comunidades tradicionais e o seu patrimônio agrícola”, pontua.

Povos e comunidades tradicionais

Segundo o Decreto Federal nº 6040 de 2007, povos e comunidades tradicionais são grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais. Eles possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Para tanto, utilizam conhecimentos, inovações e práticas geradas e transmitidas pela tradição.

Segundo a coordenadora estadual da Emater-MG, Márcia Campanharo, a empresa atua junto a esse público, em diversos projetos, em vários municípios do estado. “Podemos afirmar que desenvolvemos trabalhos com as seguintes categorias: canastreiros, vazanteiros, geraizeiros, pescadores artesanais, extrativistas, artesãos, catingueiros, veredeiros, apanhadores de flores sempre-vivas, além dos quilombolas e diversas etnias indígenas”, afirma.

As ações vão desde incentivar e apoiar os sistemas produtivos tradicionais locais; estimular a produção de alimentos básicos, assim como a diversificação de cultivos, prioritariamente em modelos de produção agroecológicos, visando à segurança alimentar e nutricional da população, até apoiar a comercialização, entre outras atividades.

“Os sistemas produtivos são em sua maioria muito diversificados. Uma mesma família costuma plantar uma diversidade de plantas, fazer extrativismo de muitos alimentos e de produtos para artesanato, além de criar animais, tanto para consumo próprio (subsistência) e também para comercialização”, explica.

Ainda conforme Campanharo, há casos de comunidades tradicionais que vem produzindo apenas para a subsistência, seja por uma condição de vulnerabilidade que estejam vivendo, ou por falta de acesso às políticas públicas relacionais à inclusão produtiva e comercialização e até mesmo, por falta de terra para cultivar. “Cada caso precisa ser analisado no seu contexto social e histórico”, argumenta.

No último levantamento das ações da Emater-MG com quilombolas, em 2015, foi apurado que a empresa atendia, naquela ocasião, 297 comunidades rurais desse grupo, em 92 municípios. Mas a coordenadora acha que o número é bem maior atualmente. “Acredito que este número tenha sido ampliado, pois temos direcionado várias ações da agenda de inclusão produtiva para os quilombolas e outras categorias”, informa.