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Senador Carlos Viana (PSD-MG) defende Passaporte da UE para judeus brasileiros

Mineiro da Câmara Alta fala sobre lei da Nacionalidade Portuguesa

Antônio Claret Guerra
De Brasília-DF (Via WhatsApp)

Qual avaliação o Sr. faz do Decreto-Lei 30-A/2015, assinado pelo Presidente da República e Pelo Primeiro-Ministro, que permite a concessão da nacionalidade portuguesa, por naturalização, a descendentes de judeus sefarditas?

R: A perseguição aos Judeus lá no final século 14 foi um momento muito triste para todos nós. Mas eu tenho um posicionamento de que nós não podemos condenar os nossos antepassados com base na nossa visão atual. Infelizmente, naquele tempo em que os estados nacionais se formavam, surgia a Espanha, surgia Portugal, os reis estavam muito influenciados por decisões da Igreja Católica pressionados pelos nobres e que, precisavam muitas vezes, tomar decisões fortes e firmes que levaram à guerras ou perseguições. Eu acredito que a melhor forma de nós analisarmos é entender que a mentalidade daquela época era incompleta, mas que hoje nós não podemos mais conviver ou aceitar. E a decisão do governo de conceder cidadania é uma prova muito interessante por parte de Portugal dessa compreensão de que não há como nós fazermos qualquer julgamento sobre decisões do passado com os pés na atualidade e no contemporâneo. É um acerto a decisão de Portugal em encarar o problema e naturalmente dar direitos aos descendentes dos Sefarditas.

Senador Carlos Viana no Plenário do Senado Federal

Essa cidadania representa uma revisão histórica da perseguição por parte da Inquisição espanhola aos numerosos judeus sefarditas que foram expulsos de Portugal, nos finais do século XV e inícios do século XVI?

R: O decreto do presidente de Portugal e do então primeiro-ministro que permite a cidadania para os descendentes de judeus perseguidos pela inquisição merece muitos aplausos. É uma demonstração clara de como um povo pode aprender com a história e pode escrever um novo futuro sem revisionismos. É um passo muito importante que Portugal deu de conciliação com a história.

Como o Sr. tem acompanhado o esforço de milhares de judeus serfarditas, especialmente em Minas Gerais, para obterem a Cidadania de Portugal e Passaporte da União Européia (EU)?

R: Interessante sobre essa questão da proximidade dos mineiros com os judeus que foram perseguidos pela inquisição. No meu caso tem um lado até muito interessante: Eu estava em Nova York, trabalhando como jornalista e uma senhora judia, Dvorah Gesher, de São Paulo, olhou para mim um dia e disse assim: você é descendente de judeus, a sua alma é judia. Eu pensei de onde essa senhora tirou isso? Mas aí ela me olhou mais firmemente e disse assim: você não está acreditando, né? Pois bem, Viana é um sobrenome de famílias que foram perseguidas durante a inquisição, fugiram para o Brasil e se espalharam pelo país. Aquilo me chamou atenção, porque já há muitos anos eu vinha buscando informações sobre a minha família e não conseguia. Ao pesquisar, vi que a inquisição durou até 1823 no Brasil. Descobri também, que na região de Ouro Preto,  especificamente em Cachoeira do Campo, um Rodrigues Viana, que é o nome da família por um lado do meu pai, havia sido preso inclusive por judaísmo. Eu comecei a observar aquilo, comecei a pesquisar mais, contratei uma pessoa que achou, inclusive, um testamento de um irmão deste Rodrigues Viana que voltou a Portugal na época, mas o irmão dele, mais novo, permaneceu aqui, o Antônio Rodrigues Viana, que é o meu antepassado. E agora, eu encontrei na árvore genealógica uma ascendente direta que infelizmente foi queimada em Portugal, cuja filha veio para o Brasil com 13 anos, casada com um Holandês e que deixou aqui família e filhos da qual sou descendente. Ou seja, explica o mistério que nós tínhamos sobre as origens e alguns costumes que os meus avós tinham. Meu avô, por exemplo, pai do meu pai, que tem essa descendência, ficava vários dias sem fazer barba quando uma pessoa morria. Um luto diferente. A pesquisa não significa que nós vamos condenar ou criar qualquer tipo de celeuma religiosa. É como eu mesmo disse, não é possível condenar a Igreja Católica pela perseguição do passado. Hoje é uma Igreja aberta e que procura se modernizar e respeitar as pessoas. Mas, os mineiros se deparam muito com isso. E no meu caso, foi muito interessante essa descoberta vinda exatamente de uma judia Sefardita.

Quais caraterísticas dos judeus e do judaísmo como religião monoteísta que o Sr. cita como importante participação na formação da cultura e da sociedade mineira?

R: A perseguição aos judeus trouxe uma série de costumes que fazem parte do nosso dia a dia. Por exemplo, como saber que uma família poderia ter costumes nas Leis de Moisés ou praticar a Lei de Moisés? Pela cozinha! Pelo que se comia! A questão do frango ao molho pardo. Eu já ouvi uma versão de que o frango ao molho pardo foi criado justamente para se dizer que a família comia o sangue. Outra questão muito importante também, receber os convidados na sala. Por que? Porque você só leva para dentro de casa pessoas que você confia. Isso formou muito esse lado do mineiro desconfiado, do mineiro silencioso. Porque quem era denunciado naquela época da inquisição, perdia tudo.  Era uma vergonha muito grande para família a acusação de judaísmo. Então, são costumes que vem dessa visão passada e que ficou no nosso inconsciente e que agora começam a ser reveladas nas origens corretas.

O Senador, ao centro, com os jornalistas João Carlos Amaral e Antônio Claret Guerra, no Restaurante do Senado, em Brasília

Sabemos que o Sr., quando muito jovem, foi atuante agente comercial da empresa de aviação alemã Lufthansa, nos escritórios de Belo Horizonte. Quais as lembranças que possui deste período de sua atividade no turismo?

R: A minha passagem pela Lufthansa foi uma experiência sem igual. Eu fui  chamado a trabalhar por uma grande pessoa, que eu considero um segundo pai, que era o gerente João Batista Pons. Eu mergulhei em um mundo totalmente novo. A Lufthansa sempre investe muito da formação da mão de obra. Eu pude visitar a Alemanha várias vezes, estudar no centro de treinamento da empresa. Para mim foi um abrir de um mundo espetacular. E a relação com o trade turístico foi sensacional, sempre fui bem recebido. Foi uma das experiências mais ricas da minha vida os seis anos em que trabalhei na Lufthansa em Belo Horizonte.

O turismo está entre suas prioridades como Senador da República, representante de Minas Gerais na Câmara Alta? De que forma pode ser o seu apoio a esta importante atividade econômica em momento tão difícil de pandemia do coronavírus?

R: Nós sabemos que o ciclo da mineração em Minas Gerais vai acabar mais uma vez. Assim como acabou o ciclo do ouro e Minas Gerais se esvaziou economicamente, agora será o do minério de ferro. Itabira, por exemplo, a previsão é de que em 2029 não tenhamos mais como explorar, ou seja, nós estaremos de frente de um grande desafio que é um novo período na economia de Minas. A meu ver, nós temos três caminhos que precisam ser trabalhados agora: a questão do agronegócio com tecnologia, já que Minas Gerais tem exemplos muito interessantes no Triângulo Mineiro e no Alto do Paranaíba,  que precisam ser expandido pelo Estado; a questão da tecnologia de informação, onde nós temos lá em Santa Rita do Sapucaí um centro tecnológico muito interessante; e por terceiro, a questão do turismo. O turismo em Minas Gerais precisa ser pensado de uma forma estruturada. Nós não temos festivais de cinema de teatro. Isso precisa ser pensado. Nós temos tudo! Nossa culinária espetacular atrai pessoas do mundo todo, nós temos cidades históricas, paisagens maravilhosas e temos uma gente acolhedora. Em Brasília, eu tenho defendido que nós passemos a criar fundos de investimento para o financiamento dos projetos que possam ajudar Minas Gerais. Eu tenho plena convicção que o turismo pode ser sim o grande motor da nova economia de Minas. Mas  que, em muitas vezes, as autoridades e governos não dão atenção devida.