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Urca: uma ‘ilha’ de tranquilidade em plena orla do Rio

Quem ouve falar no Bondinho do Pão de Açúcar – cartão postal do Rio de Janeiro – não pode imaginar que um dos bairros localizados aos pés de toda aquela agitação turística seja um lugar pacato, com ares de cidade do interior. A Urca – este é seu nome – tem pouco mais de sete mil habitantes e, apesar de abrigar universidades, escolas militares, praias, clubes, um museu, uma fortaleza e um instituto de design, consegue se manter tranquila e costuma servir de refúgio aos que querem escapar da movimentação característica do restante da zona Sul.

Foto José Caldas - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Um dos lugares mais procurados por visitantes, e também por moradores da cidade, é o famoso
‘murinho’ ou ‘mureta’ – uma espécie de balaustrada de onde se pode admirar o oceano, os barcos, os pescadores e as montanhas cariocas tomando cerveja gelada e petiscos servidos por bares locais. Um dos trechos da mureta recebeu o nome de ‘pobreta’ por ter produtos mais baratos que os da concorrência localizada em outro trecho do morro.

Caminho dos Bem-te-vis

Menos frequentada, mas tão ou mais encantadora, é a Pista Claudio Coutinho – batizada assim em homenagem ao ex-treindor do Flamengo e da Seleção Brasileira – , mas que se tornou conhecida como

Foto Alexandre Macieira  Riotur Divulgação - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Caminho dos Bem-te-vis. Trata-se de uma pistaa asfaltado com pouco mais de um quilômetro, localizada entre o mar e o Morro da Urca, onde sobrevive um pedacinho de Mata Atlântica. Como o próprio nome sugere, o lugar é povoado por pássaros, mas não por exatamente Bem Te Vis.

A espécie mais presente talvez seja o Tiê-sangue, também conhecido como Sangude-boi, cujo nome científico – Ramphocelus bresilius – significa pássaro brasileiro com bico côncavo.

Foto Dario Sanches Wikimedia - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Além de ser uma espécie praticamente exclusiva do Brasil, o Tiê-sangue é considerado símbolo da Mata Atlântica. Ao lado dos Tiês, chama atenção no local a espécie Martim-pescador-grande. São pássaros com mais de 40 centímetros de comprimento, que estão ligados a algumas versões do mito grego de Ceix e Alción. O casal teria provicado a ira de Zeus por ter se comparado a ele e à sua esposa Hera. Para puni-los, Zeus transformou Ceix em um Albatroz (ou em um Ganso, a depender da versão) e Alción em um Martin Pescador.

Foto Dario Sanches Wikimedia - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A trilha é povoada, ainda, por saguis – predadores que vieram de fora e provocam um certo desequilíbrio ambiental, mas que, por outro lado, fazem a alegria das crianças. E além dos animais, quem anda pelo

Caminho dos Bem Te Vis pode apreciar árvores nativas como Pau Brasil e Figueiras. Numa certa altura, os caminhantes têm a opção de seguir pela triha que leva ao topo do Morro da Urca, onde fica a primeira parada do bondinho que leva ao Pão de Açúcar. Ao final, há uma outra trilha, mas essa não é para amadores, pois exige algumas habilidades.

A fundação do Rio de Janeiro

Esse lugar paradisíaco foi habitado inicialmente por povos indígenas de língua Tupi. Os primeiros europeus que chegarem eram franceses, comandados por Nicolas Durand de Villegagnon e foi com o

Foto José Caldas - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

propósito de expulsá-los que os portugueses decidiram ocupar a região, cerca de 60 anos depois de sua chegada inicial ao território brasileiro, no evento que convencionou-se chamar de ‘descobrimento’. Como os franceses resistiram, Portugal enviou uma segunda expedição e, o seu comandande, Estácio de Sá, fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O nome era uma homenagem ao rei de Portugal – o famoso ‘Rei Menino”, que desapareceu misteriosamente, anos depois, na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos.  O local escolhido foi a faixa de terra entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde hoje se encontra a Fortaleza de São João.

Foto José Caldas - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Na época, o que hoje chamamos de Urca, incluindo os morros Cara de Cão, Pão de Açúcar e da Urca formavam uma ilha que foi batizada com o nome de Trindade. Os portugueses escolheram o local para melhor se proteger dos indígenas que habitavam o litoral. Mas, com o tempo, a cidade foi transferida para o Morro do Castelo, no continente, e Trindade, que passou a ser chamada de Cidade

Foto José Caldas - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Velha, ficou restrira à defesa da Baía de Guanabara. Cerca de um século depois, a ilha foi unida ao continente por meio de um aterro que formou a atual Praia Vermelha. Mas, apesar do aterro, o acesso à área continuou difícil.

O bairro da Urca começou a se concretizar somente em 1921, por meio de um contrato. O objetivo central era a construção de um cais que ligasse a Praia da Saudade à Fortaleza de São João a fim de facilitar o acesso por terra. Em contrapartida, a empresa que assumiu a obra deveria, entre outras ações, construir uma escola para 200 alunos –  a

Foto José Caldas - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

atual Escola Municipal Minas Gerais. A empresa, comandada pelo o engenheiro Oscar de Almeida Gama, chamava-se Sociedade Anônima Empresa da Urca e é possível que daí tenha surgido o nome do bairro. 

Na verdade, não se sabe que denominação veio primeiro, se a da empresa ou do bairro, já que a Sociedade Anônima foi criada específicamente para realizar essa obra. Seja qual for a verdade, existem pelo menos duas versões para a origem do nome Urca, ambas relacionadas aos hokandeses:  uma delas atribui o batismo do bairro ao nome de um navio comandado pelo Olivier Van Noort, conhecido como o LeBlond. A segunda, e mais provável, pois pode ter inspirado também o nome do navio, é que urca é o nome dado a um tipo de embarcação holandesa cuja forma lembra a do atual Morro da Urca.

Um reduto de educação e cultura

A Urca abriga hoje duas das principais unversidades públicas do estado: a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)  – cujos jardins são um passeio a parte  –  e a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Reune também  diversas instituições militares como a Escola Superior de Guerra (ESG), a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), a Escola de Guerra Naval (EGN), o Instituto Militar de Engenharia (IME) e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM). Estão localizadas, ainda, nesse pequeno bairro, o Instituto Benjamin Constant, que é referência na educação de visuais e a Escola Municipal Minas Gerais.

Foto Wikimedia - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O Cassino da Urca

O EAD Rio escolheu como sede o histórico prédio do Cassino da Urca que tem uma longa tradição no Rio de Janeiro. Foi inaugurado em 1922 como Hotel Balneário, mas nunca chegou a alçar grandes voos nessa categoria. Cerca de uma década depois, quando o presidente Getúlio Vargas liberou os jogos de azar em casas de shows, foi criado um teatro improvisado em seu hall, aparentemente apenas para viabilizar o cassino. 

Foto Divulgação - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Embora tenha nascido à reboque do jogo, o teatro foi quem fez história, tornando-se um dos mais emblemáticos da múcia brasileira em sua época de ouro marcada por shows de Ary Barroso,
Grande OteloDick FarneyVirginia LaneDalva de Oliveira e Carmen Miranda. Com a proibição dos jogos, em  , foi a vez do cassino fechar e, com ele, seu teatro. Na etapa seguinte, entre 1951 e 1980, o prédio foi utilizado pela TV Tupi e seu palco – que deixou de ser improvisado logo nos primeiros anos de funcionamento do teatro – serviu de cenário ao Cassino do Chacrinha. Mas essa história será contada com detalhes em outra matéria.

Cultura e Comunidade

Completando a vocação educativa do bairro, estão intslados em sua área pelo menos mais duas  importantes instituições culturais. Uma delas é o Museu de Ciências da Terra que, embora não seja muito divulgado, possui um acervo composto por 10 mil amostras de minerais e meteoritos; 12 mil rochas e 35 mil fósseis catalogados, além de uma biblioteca com 100 mil volumes relcionados à área

Foto Tânia Rêgo Agência Brasil  Wikimedia _ Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

de Geociências e uma Biblioteca Infantil.
A outra instituição é a fortaleza de São João, onde funcionam, atualmente, várias instituições do Exército ligadas à Educação e Capacitação Física, inclusive o Museu do Desporto, além da Escola Superior de Guerra. Nessa fortaleza  encontra-se o marco da fundação do Rio de Janeiro, que, visto de cima, forma uma Cruz de Malta. Pode-se destacar, ainda, uma cela que teria sido usada por Tiradentes ao ser preso junto com outros líderes da Inconfidência Mineira e um Portão de Armas tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Faz parte, ainda, do complexo dessa fortaleza, o Forte São José, todo em pedra talhada. O sitio histórico é abero à visitação e já foi usada como locação de filmes e produções

Foto Anita Leandro - Matéria Urca - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

televisivas.
Além das instituições militares, educativas e culturais, a Urca abriga também artistas e intelectuais, com seus respectivos ateliês, escritórios. Dessa soma de conhecimento, criatividade e sossego não foi difícil surgirem movimentos colaborativos que trazem ventos renovadores para o bairro, sem deixar de lado a sua tradição histórica. Entre as novidades está a AgroFloresta da Urca – , um coletivo de jovens criado com o propósito de “transformar locais abandonados e insalubres, com acúmulo de lixo, em espaços vivos e de cooperação” por meio do plantio de hortas e árvores frutiferas. Exemplo disso está na escadaria zig zag que recebeu, em suas laterais, bananeiras, mamoeiros e outras plantas comestíveis que embelezam a paisagem e abastecem a comunidade.

Urca – Rio de Janeiro – Estado do Rio de Janeiro – Brasil – América do Sul


Texto:
 Sylvia Leite
Jornalista – MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Participação especial:
 Anita Leandro (Professora, Jornalista e Diretora de Cinema)

Fotos:
(1,2, 6, 7, 8 e 9) José Caldas, da equipe voluntária de fotógrafos profissionais do blog ‘lugares de memória”
(3) Alexandre Macieira – Riotur – Divulgação
(4 e 5) Dario Sanches Wikimedia Tiê-sangue e Martin-pescador-grande CC BY-SA 2.0
(10) Eduardo Bezerra – Pedro Correa do Lago – Coleção Princesa Isabel: Fotografia do século XIX. Capivara, 2008, Domínio público, Wikimedia
(11) Wikimedia CC BY-SA 2.5
(12) Divulgação
(13) Site do Museu de Ciências da Terra – Divulgação
(14) Tânia Rêgo – Agência BrasilWikimedia, CC BY 3.0
(15) Anita Leandro

Referências:Site Riotur