Fruto de um processo autoral construído ao longo de dez anos, o filme nasce do encontro entre arquivos, lembranças e relações que atravessaram a diretora Luciene Araujo, durante a pesquisa. Em seis exibições com casas lotadas e relevantes debates. A narrativa se aproxima de Helena Greco pela sensibilidade da forma, permitindo que a memória seja percebida não como registro linear, mas como experiência que se amplia, ressoa e se reinventa a cada gesto. O filme encerra um circuito de exibições que celebrou a democracia e direitos humanos.
O percurso de exibições do documentário reforça essa dimensão de obra viva. A Casa da Floresta, Casa Socialista, Assprom, Casa Aberta, PUC Betim, Galpão Cine Horto, receberam o filme e colocaram em contato direto com pessoas, casas e coletivos. Agora, no Pierrot Lunar, referência artística em Belo Horizonte, o encontro ganha novo simbolismo. O local, que se mobiliza para manter suas atividades e sua importância cultural, dialoga naturalmente com o cinema independente e com a ideia de espaços que precisam continuar abertos para que memória, arte e democracia permaneçam em movimento.
Luciene explica que há uma presença feminina no modo como o filme organiza sensações e estabelece vínculos. “É uma construção que se revela nas associações entre as cenas, nos silêncios, no gesto de escutar. A presença feminina está na maneira de olhar”, afirma. A diretora reforça que sua ideia de autoridade documental está na própria obra. “O filme se sustenta nas relações que cria dentro de si, nos caminhos narrativos que se estabelecem organicamente. A força está na forma, que é o que nos convoca a sentir.
A casa de Helena, no centro de Belo Horizonte, surge como território vivo: espaço de acolhimento, trocas, decisões urgentes e delicadezas cotidianas. Essa atmosfera atravessa o documentário por meio de metáforas como cartas, correspondências e memórias que cruzam tempos distintos. A cidade também se torna uma espécie de casa expandida, lugar onde a obra encontra novas leituras a cada exibição.
Relatos de familiares e de pessoas que acompanharam a trajetória de Helena formam um mosaico de memórias que entrelaça vida política, afetos e vivências compartilhadas. A participação de quem testemunhou momentos decisivos da ditadura fortalece a perspectiva histórica do filme e evidencia como a convivência pode transformar e sustentar a resistência.
Para Luciene, essa é a essência do projeto. “Helena fez da casa um lugar de escuta e reinvenção. Pessoas muito diferentes encontraram ali o que precisavam para respirar e agir. O filme tenta honrar isso, permitindo que as trocas atravessem a obra”, diz. Ela destaca ainda o caráter aberto do documentário. “A cada sessão surge um sentido novo. O público completa o filme, transforma e devolve outra camada.”
“A Casa de Dona Helena Greco” é um convite à escuta. Ao abrir janelas para a história e para a sensibilidade, o filme lembra que a memória não é apenas aquilo que se preserva, mas aquilo que continua a acontecer quando alguém decide olhar com atenção.
Companhia Pierrot Lunar
A Cia Pierrot Lunar é um dos grupos teatrais mais atuantes da cena cultural de Belo Horizonte. Fundada em 1993, a companhia desenvolve uma pesquisa contínua em teatro narrativo, unindo literatura, música e encenação em seus espetáculos. Desde 2008, mantém o Espaço Aberto Pierrot Lunar, no bairro Floresta, que funciona como sede artística e polo cultural, recebendo apresentações de teatro, dança, cinema, performances e projetos formativos. Reconhecida por sua atuação independente e pelo compromisso com a democratização do acesso à cultura, a Pierrot Lunar já circulou por dezenas de cidades mineiras e se consolidou como referência na produção cultural alternativa e no fomento à diversidade artística em Minas Gerais.
Serviço
Exibição do documentário “A Casa de Dona Helena Greco”
Data: 3 de dezembro, quarta-feira, Horário: 19:30
Local: Companhia Pierrot Lunar, R. Ipiranga, 137 – Floresta, Belo Horizonte
Após o filme: roda de conversa sobre memórias, democracia e direitos humanos
Entrada gratuita
Crédito da foto: Derks24/ Pixabay





