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Cidades pequenas transformam turismo em motor da economia e viram exemplo de desenvolvimento no Brasil

Planejamento urbano, identidade local e oferta organizada de experiências ajudam municípios de menor porte a atrair visitantes, gerar empregos e movimentar bilhões

Foto profissional – pexels.com

Em diferentes regiões do país, cidades brasileiras com menos de 100 mil habitantes têm mostrado que tamanho populacional não é barreira para protagonismo econômico. Apoiado em planejamento, promoção de destino, qualificação de serviços e valorização da identidade local, o turismo passou a ocupar papel central na geração de renda e empregos em municípios que conseguiram transformar vocação em estratégia de desenvolvimento.

O movimento ocorre em um momento de expansão do setor no país. Dados do Ministério do Turismo mostram que as atividades ligadas ao setor geraram 79.632 empregos formais nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026. Os segmentos de alimentação, alojamento, cultura e lazer concentraram a maior parte das vagas abertas. Além disso, o setor fechou 2025 com saldo positivo de mais de 80 mil novos empregos formais, segundo informações do governo federal com base no Novo Caged.

Para a especialista em turismo Santuza Macedo, o avanço de pequenos destinos não acontece por acaso. Segundo ela, os casos de sucesso costumam combinar visão de longo prazo, organização do território e uma proposta clara de valor ao visitante.

“Cidades que conseguem crescer no turismo de forma consistente normalmente entendem muito bem qual experiência querem entregar. Não basta ter beleza natural ou clima agradável. É preciso estruturar acesso, hospedagem, gastronomia, comunicação, calendário e sensação de pertencimento. O turista percebe quando o destino foi pensado”, afirma.

O que explica o salto de cidades menores

Na avaliação de Macedo, o crescimento de municípios turísticos de pequeno porte está ligado a uma combinação de fatores. Entre os principais estão a construção de uma marca territorial forte, o investimento em infraestrutura urbana, a presença de rede hoteleira compatível com a demanda e a criação de atrações capazes de reduzir a sazonalidade.

Esse conjunto ajuda a explicar por que destinos como Gramado, na Serra Gaúcha, Caldas Novas, em Goiás, e Holambra, no interior de São Paulo, consolidaram modelos turísticos próprios e ganharam projeção nacional.

Em Gramado, o turismo é tratado como eixo estruturante da economia local. Dados divulgados pelo Observatório do Turismo mostram que a cidade recebeu 7,9 milhões de turistas em 2025, com crescimento de 20,7% em relação ao ano anterior, aproximando-se do recorde histórico de 2023. O aumento da permanência média dos visitantes também reforça o impacto econômico local.

Para Santuza Macedo, Gramado se consolidou porque conseguiu transformar atributos simbólicos em experiência organizada.

“Gramado não vende apenas hospedagem ou passeio. A cidade vende atmosfera, previsibilidade, cuidado urbano e experiência contínua. Isso fortalece o destino e faz o turista permanecer mais tempo, consumir mais e recomendar mais”, diz.

Águas termais, flores e segmentação do produto turístico

No Centro-Oeste, Caldas Novas se mantém entre os principais destinos de lazer do país apoiada na força de suas águas termais e na capacidade de hospedagem. O Painel de Indicadores das Regiões Turísticas de Goiás, elaborado com base em dados do Observatório do Turismo do Estado, aponta que o município passou de 64.286 leitos em 2019 para 78.636 leitos em 2022/2023, além de registrar aumento no número de hotéis no período.

Já Holambra, em São Paulo, consolidou um modelo apoiado em identidade cultural, produção de flores e turismo de experiência. O Plano Diretor de Turismo 2024-2026 do município estima que a cidade receba cerca de 1 milhão de visitantes ao longo do ano, desempenho expressivo para uma cidade de pequeno porte.

Na leitura de Santuza, esses destinos ajudam a mostrar que o turismo cresce mais quando a cidade não tenta ser genérica.

“Cidades que se destacam geralmente têm um posicionamento muito claro. Uma é reconhecida pelo clima e pela experiência urbana, outra pelas águas quentes, outra pela produção de flores e pela herança cultural. O turista de hoje valoriza autenticidade, não apenas deslocamento”, afirma.

Outros destinos que reforçam a tendência

Além dos casos mais conhecidos, outras cidades brasileiras de menor porte vêm ampliando sua relevância no mapa turístico nacional. Municípios como Pirenópolis (GO), Bento Gonçalves (RS), Monte Verde (MG), Bonito (MS) e Jijoca de Jericoacoara (CE) mostram que o turismo pode ganhar força quando há uma combinação entre paisagem, produto bem definido e gestão local.

Em muitos desses lugares, o diferencial não está apenas no atrativo principal, mas na capacidade de organizar a cadeia econômica ao redor dele. Hospedagem, gastronomia, comércio, receptivo, mobilidade, calendário de eventos e comunicação institucional passam a operar de forma integrada.

Para Santuza Macedo, esse é um ponto decisivo.

“Quando o turismo amadurece, ele deixa de ser apenas visitação e passa a funcionar como ecossistema econômico. O visitante movimenta hotel, restaurante, transporte, guia, comércio local e até o mercado imobiliário. Por isso, cidades menores conseguem resultados tão expressivos quando aprendem a trabalhar o destino de forma integrada”, explica.

Planejamento público e continuidade fazem diferença

Segundo a especialista, destinos bem-sucedidos tendem a ter algo em comum: continuidade. Em vez de ações isoladas, esses municípios apostam em planejamento de médio e longo prazo, monitoramento de fluxo turístico, parcerias com o setor privado e cuidado permanente com a experiência urbana.

Esse ponto aparece com força em cidades que conseguiram enfrentar períodos de crise e manter atratividade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a Secretaria Estadual de Turismo destacou, em 2025, que a atividade turística tem papel relevante na recuperação econômica de cidades de diferentes portes e funciona como vetor de emprego, renda e diversificação produtiva.

Santuza afirma que o turismo não se sustenta apenas com promoção.

“Marketing ajuda a atrair, mas é a estrutura que sustenta. Sem mobilidade, limpeza, segurança, sinalização, qualificação profissional e inteligência de dados, o crescimento vira pressão sobre a cidade em vez de desenvolvimento”, avalia.

O que outras cidades podem aprender

Na avaliação de Macedo, a experiência de municípios que transformaram o turismo em motor econômico oferece lições práticas para outras cidades brasileiras que desejam ampliar sua competitividade.

Entre os fatores mais relevantes estão: capacidade de identificar uma vocação real do território, criação de produtos turísticos consistentes, investimento em qualificação da mão de obra, fortalecimento da governança entre poder público e iniciativa privada, além de monitoramento constante da demanda.

Santuza Macedo destaca que muitas cidades têm potencial turístico, mas ainda falham em transformar o atrativo em produto.

“Muitas cidades têm patrimônio natural, cultural e gastronômico, mas ainda não conseguiram organizar isso de forma vendável e sustentável. O salto acontece quando o município entende quem quer atrair, por que alguém escolheria aquele destino e como fazer essa experiência funcionar do começo ao fim”, afirma.

Turismo como política de desenvolvimento

Mais do que uma vitrine, o turismo vem se consolidando como política econômica em municípios de pequeno porte. Em um cenário de busca por diversificação produtiva, a atividade aparece como alternativa capaz de distribuir renda, ampliar arrecadação e estimular negócios locais.

Para Santuza, o crescimento desses destinos também ajuda a mudar a percepção sobre o interior do país.

“Durante muito tempo, o protagonismo turístico ficou concentrado nas capitais e nos destinos tradicionais de praia. Hoje, cidades menores mostram que é possível competir com identidade, organização e experiência de qualidade. Isso fortalece economias locais e descentraliza o turismo brasileiro”, conclui.

Sobre Santuza Macedo:

Santuza Macedo é empreendedora e especialista em turismo, com ampla experiência nacional e internacional. CEO da Diamond Viagens, atuou em Orlando (EUA), onde se especializou em experiências personalizadas na Disney e no turismo familiar. Hoje, lidera projetos e consultorias que envolvem roteiros nacionais e internacionais, cruzeiros, excursões e viagens sob medida, conectando brasileiros a destinos que unem conforto, cultura e propósito. Seu trabalho tem como foco transformar o ato de viajar em uma experiência completa, planejada com segurança, encantamento e estratégia.