Pesquisa da Incogni mostra que grandes plataformas frequentemente compartilham dados com governos — indicando que a “triagem” de viagem pode se transformar em monitoramento de longo prazo.
Após a publicação de uma nova proposta da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) para ampliar a coleta de dados de visitantes estrangeiros, a Incogni alerta que a medida pode criar um amplo “pipeline de dados governamental”, indo muito além de postagens em redes sociais e avançando sobre metadados, vínculos familiares e identificadores biométricos permanentes.
De acordo com o aviso publicado no Federal Register, o CBP propõe tornar obrigatória a divulgação de até cinco anos de histórico de redes sociais para viajantes que utilizam o sistema ESTA, do Programa de Isenção de Visto, além de incluir, “quando viável”, campos considerados de “alto valor”, como:
- Números de telefone usados nos últimos cinco anos
- Endereços de e-mail utilizados nos últimos dez anos
- Endereços IP e metadados de fotos enviadas eletronicamente
- Informações familiares (nomes, datas e locais de nascimento, residência e telefones)
- Dados biométricos — rosto, impressões digitais, DNA e íris
- Contatos profissionais (e-mails e telefones)
Embora o Brasil não faça parte do Programa de Isenção de Visto — e viajantes brasileiros não utilizem o ESTA — a Incogni ressalta que a proposta é relevante para o país por reforçar uma tendência de ampliação e normalização da coleta de dados sensíveis em processos migratórios, inclusive para solicitantes de visto, que já são obrigados a informar perfis de redes sociais.
“Os perfis de redes sociais chamam atenção nos títulos, mas a questão central é a extensão e a permanência dos dados que estão sendo considerados”, afirma Darius Belejevas, Diretor da Incogni. “Quando governos passam de verificações pontuais de identidade para a coleta de metadados, informações familiares e biometria como DNA e íris, o risco deixa de ser apenas de triagem e passa a envolver monitoramento e uso prolongado dessas informações.”
“Mesmo quando uma medida começa aplicada a determinados grupos ou programas, ela costuma estabelecer precedentes”, acrescenta Belejevas. “É por isso que essa proposta importa também para países fora do programa de isenção de visto, como o Brasil.”
Por que o histórico de redes sociais envolve mais do que postagens
O Social Media Privacy Ranking 2025, da Incogni, avaliou as principais plataformas digitais em categorias como transparência, incluindo a frequência com que compartilham dados de usuários em resposta a solicitações governamentais e o quão acessíveis essas informações são para o público.
A análise mostrou que, quando há dados disponíveis, os índices de compartilhamento costumam ser elevados. Nos relatórios mais recentes analisados pela Incogni:
- Snapchat compartilhou algum dado em 82% das solicitações governamentais
- Plataformas da Meta (como Facebook e Instagram) em 78%
- Discord em 77,4%
- No outro extremo: X em 51%, LinkedIn em 53% e Pinterest em 54%
“Esses números mostram uma realidade prática: quando um viajante é obrigado a informar suas contas, o ecossistema em torno dessas contas pode envolver acesso governamental — muitas vezes de formas que os usuários não compreendem totalmente”, explica Belejevas.
Como viajantes podem reduzir a exposição de dados pessoais
Embora não seja possível optar por não cumprir exigências oficiais de entrada, a Incogni recomenda algumas medidas para limitar a exposição desnecessária:
- Restringir perfis em redes sociais, removendo postagens públicas antigas e ajustando configurações de privacidade
- Usar um e-mail dedicado para formulários e autorizações de viagem
- Remover metadados de fotos e desativar serviços de localização antes de enviar imagens
- Excluir dados pessoais de sites de corretores de dados (data brokers) para reduzir perfis paralelos
- Conhecer seus direitos de acesso e correção de dados, quando aplicáveis
Sobre a Incogni
A Incogni é uma empresa de proteção à privacidade que ajuda usuários a remover automaticamente seus dados pessoais de bancos de dados de corretores de dados. Seu Research Lab investiga tendências globais de privacidade, analisando como informações pessoais são coletadas, compartilhadas e monetizadas — e como essas práticas podem gerar riscos para indivíduos e instituições.
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