quinta-feira, março 12, 2026
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Reciclagem Ética e Estética em Eymard Brandão

Em plena vigência do Pós-Moderno, Eymard Brandão sabe ainda acolher atiladamente a “prosa do mundo”, imergindo-a no universo fantástico do invisível, que é inacessível, dizia Vicente Abreu, à “percepção habitual e mecanista do mundo aparente”. Eymard aprendeu primeiro que o andamento dessa prosa (ou música) do mundo-cosmos é o de um murmúrio, o de um trinado de um pássaro esquivo. (…)

O “ready made”, o objeto já desqualificado de sua função pragmática, assume uma semiologia própria em Eymard Brandão que aliciou até essa semiologia, a fim de compor a semântica de sua mensagem.

 E o fez (e o faz) ora contrastando a voz pesada do OBJETO com o timbre desmaiado da NATUREZA residual, ora deixando que a voz de um e o timbre da outra intercambiassem seus diversificados poderes de significação.

 O cultural assume um papel de mediação entre o artista e a voz da natureza. Assim, também, seus gestos, lacerando a epiderme da terra. Assim sua crueldade quando embalsama as plantas vivas, para recordar a vida – viço, aventura e perigo. (…)

“Art does not reproduce the visible, rather it makes visible.” A contensão de Eymard Brandão é diferente de Paul Klee, que visava à autonomia da visibilidade criada pela arte.

Com pós-graduação na Índia, Eymard faz amálgamas de sentidos. Concatenar e separar, numa dualidade plácida e ao mesmo tempo plena de cortes: vida-transfiguração, releitura e perquirição existencial.

 Eymard não quer, também, “reproduzir o silêncio”. Sob a influência da tradição oriental, intui a relevância do silêncio na relação de diálogo que o Mundo procura entreter conosco.

 O não dizer diz mais. Mais vale interromper o traçado, para liberar a gravidade eloquente dos vazios, das pausas, dos vazados. O contorno das linhas não aprisiona o olhar às significações temáticas.

 Os retângulos negros, sem denotação precisa, conotam mais uma reconciliação com a Vida, (…) numa misteriosa dimensão de paz  que irradia e nos pacifica também. (…)

Ferruginosas ou enferrujadas interferências: o riscado. Terrosos/ferrosos havana e ocre. Eymard aprendeu com a “prosa do mundo”.

Se Eymard, sem perder em originalidade, assimilou uma trilha importante da Arte Moderna, por outro lado, alcança o “élan” de futuridade da Arte Contemporânea.

Daí o velado sentido de ETICIDADE de suas obras. Ao reciclar o degradado, o poído, o descartável, não pensa apenas na novidade do cromatismo e das formas a fim de provocar, pela surpresa e pelo insólito, inédita efusão estética. (…)

Como muitos artistas contemporâneos (e como Picasso), Eymard confirma: na arte, como na vida, a constatação da decadência é ainda um ato de fé”.

Terra, ouro e prata. Duas partes separadas por faixa/metal.

*Moacyr Laterza

Filósofo, escritor e professor de Estética e Filosofia na UFMG e na UEMG

Belo Horizonte, 1988

Galeria: Lemos de Sá Galeria de Arte.

Rua: Germano Chati 255 – Mangabeiras   BH

Tel.: (31) 3261-3993