No programa Conexão Turismo, da Abrajet Minas Gerais, a cônsul do Reino Unido em Minas, Laura Queiroz, apresentou um panorama abrangente das relações entre o estado e o governo britânico. A conversa abordou desde a história de 200 anos de diplomacia entre Brasil e Reino Unido até o papel da mineração sustentável, os programas de educação e intercâmbio, o crescimento do turismo em Minas e os preparativos para a COP30, que acontecerá na Amazônia em 2025.

Ao lado do jornalista Antônio Claret Guerra, presidente da Abrajet-MG, da cônsul da Finlândia, Patrícia Coutinho e João Carlos Amaral – Jornalista, Laura contou também detalhes pessoais de sua trajetória e das origens de seu sobrenome eslovaco.
Das raízes familiares à diplomacia britânica
Laura iniciou a entrevista lembrando sua origem mineira e o vínculo com a cidade histórica de Mariana, destacando também o lado familiar eslovaco herdado do avô, refugiado da Segunda Guerra Mundial.
“Meu avô veio fugido da guerra e conheceu minha avó por cartas. Eles se casaram em Belo Horizonte e construíram aqui a nossa história. Sou mineira, mas trago no sobrenome uma herança eslovaca da qual tenho muito orgulho.”
Formada em engenharia ambiental, Laura começou sua trajetória no consulado como estagiária de mineração, em 2018, motivada por um propósito: ajudar o setor a se tornar mais sustentável.
“Entendi que, para transformar, eu precisava estar dentro. Queria ser uma ponte entre a técnica e a mudança. O Reino Unido, com sua tradição mineradora, tem muito a contribuir com Minas.”
O papel do consulado britânico em BH
Laura explicou que o consulado funciona com uma equipe enxuta de cinco pessoas, mas com alto impacto.
“Somos um escritório pequeno, mas estratégico. Atuamos em frentes comerciais, ambientais e políticas, fortalecendo laços institucionais com o governo mineiro, o setor privado e as universidades.”
Ela reforçou que o consulado tem contato constante com o Consulado-Geral do Reino Unido no Rio de Janeiro, responsável pelos serviços consulares, como emissão de passaportes e emergências com cidadãos britânicos.
“Trabalhamos em estreita cooperação com o Rio e com instituições locais, como a prefeitura, as polícias e o aeroporto, garantindo que casos consulares sejam resolvidos com agilidade.”
Educação, intercâmbio e formação de líderes
A cônsul destacou o papel da educação como pilar das relações bilaterais.
“O British Council é um grande parceiro, junto à Cultura Inglesa. Promovemos cursos, capacitações para professores e programas de bolsas como o Chevening, que oferece mestrado integral no Reino Unido com todas as despesas pagas – da universidade à moradia.”
O programa Chevening, explicou, tem o objetivo de formar lideranças globais.
“Os bolsistas estudam um ano no Reino Unido e depois retornam ao Brasil, aplicando o conhecimento adquirido. É uma política de intercâmbio que transforma carreiras e amplia pontes culturais.”
Mineração, tecnologia e sustentabilidade
Laura detalhou a relação histórica entre Minas Gerais e o Reino Unido desde o século XIX, quando empresas britânicas como a St. John del Rey Mining se instalaram em Nova Lima. Hoje, o foco é a mineração sustentável e a transição energética.
“Temos trabalhado fortemente em projetos de descarbonização, hidrogênio verde e energia eólica offshore. O Reino Unido investe em tecnologias que reduzem emissões e fortalecem a governança ambiental. O Brasil é um dos principais beneficiários dos fundos climáticos britânicos.”
O consulado também busca internacionalizar empresas mineiras.
“Ajudamos escritórios de advocacia, fintechs e bancos que querem abrir operações no Reino Unido. Nosso papel é facilitar essa ponte econômica.”
O que é Reino Unido, Grã-Bretanha e Commonwealth
Em tom didático, Laura explicou a diferença entre os termos que costumam gerar confusão:
“O Reino Unido é composto por quatro nações: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Já a Grã-Bretanha é apenas a ilha que abriga Inglaterra, Escócia e País de Gales – é uma referência geográfica. A Commonwealth, por sua vez, é uma comunidade de 56 países que têm laços históricos com o antigo Império Britânico e que hoje cooperam de forma voluntária em cultura, economia e diplomacia.”
Ela acrescentou que cerca de um terço da população mundial pertence à Commonwealth e que países como Canadá, Austrália e Nova Zelândia ainda reconhecem o rei Charles III como chefe simbólico.
“É uma união baseada em valores compartilhados. Esses países mantêm orgulho de fazer parte dessa rede e continuam colaborando com o Reino Unido.”
Dez anos do consulado em BH e a diplomacia mineira
A instalação do consulado em Belo Horizonte ocorreu em 2015, durante o ciclo de grandes eventos esportivos no Brasil. A delegação britânica escolheu o Minas Tênis Clube para seus treinamentos, e a proximidade com o clube influenciou a decisão de abrir a representação na Savassi.
“Minas foi reconhecida pela excelência de suas estruturas e pela hospitalidade. Estar presente aqui permitiu uma diplomacia mais próxima, mais humana. O mineiro é desconfiado, mas, depois que confia, é parceria pra sempre.”
O resultado, segundo a cônsul, foi um aumento expressivo nas exportações de tecnologia britânica e no intercâmbio cultural.
“Hoje, somos referência em relacionamento local. Essa presença permanente abriu portas para novos projetos.”
Minas no mapa do turismo internacional
O jornalista Antônio Claret questionou sobre o olhar dos britânicos para o turismo em Minas. A cônsul respondeu com entusiasmo:
“Todo mundo que vem ao Brasil quer conhecer Minas. O estado é visto como seguro, tradicional e com uma gastronomia que encanta. O queijo, o torresmo e a cachaça fazem tanto sucesso que já brincamos que o chá das cinco por aqui vem com uma pinguinha.”
Laura destacou também afinidades culturais entre Minas e o Reino Unido:
“A Escócia lembra muito Minas: povo acolhedor, clima ameno, cultura e bebida artesanal. E temos até uma conexão com a região de Cornwall, que tem passado minerador semelhante e até uma rua chamada Minas Gerais.”
O Reino Unido e o futuro do clima: rumo à COP30
Com o olhar voltado ao futuro, Laura comentou sobre os 200 anos de relações diplomáticas que serão comemorados em 2025 e a importância da COP30 na Amazônia.
“A COP será uma oportunidade histórica. O Reino Unido quer mostrar resultados concretos, esta é a década decisiva para limitar o aquecimento global a 1,5°C. Minas Gerais tem papel importante nessa agenda climática e queremos trabalhar lado a lado.”
A monarquia e o charme britânico
Ao ser perguntada sobre a permanência da monarquia no Reino Unido, Laura explicou que o sistema faz parte da identidade nacional.
“Os britânicos valorizam a tradição e a continuidade. A monarquia é um símbolo cultural e diplomático, que ajuda o país a se projetar no mundo e ainda atrai divisas por meio do turismo e do fascínio global.”
Turismo de brasileiros no Reino Unido
Sobre os brasileiros que desejam visitar o país, a cônsul lembrou que não é necessário visto para estadias de até seis meses, apenas a autorização eletrônica ETA, que pode ser solicitada pelo aplicativo “ETA UK”.
“O processo é rápido e digital. Para períodos maiores, é preciso solicitar visto de trabalho ou estudo.”
A mensagem que define a entrevista
Encerrando o encontro, Laura deixou um recado inspirador aos jornalistas e profissionais do turismo:
“Tenham coragem. É a coragem que abre as portas.”
Uma presença que consolida parcerias
A presença britânica em Minas Gerais se traduz hoje em cooperação técnica, investimentos em inovação e trocas culturais que vão muito além da diplomacia formal. A história iniciada há dois séculos entre o Brasil e o Reino Unido segue viva, renovada pelo diálogo e pela busca por um desenvolvimento mais sustentável e humano.
“Minas é a alma do Brasil e, para nós, britânicos, é também uma extensão da nossa história”, concluiu a cônsul.
Programa Conexão Turismo – Abrajet Minas Gerais
Apresentação: Jõao Carlos Amaral
Participações: Laura Queiroz (Cônsul do Reino Unido em Minas Gerais), – Patrícia Coutinho (Cônsul da Finlândia), – Antônio Claret Guerra (Presidente Abrajet)
Texto: Mauro But





