A tapeçaria de Luiz Chaves reúne memória ancestral, referências culturais e consciência ecológica em composições que ultrapassam a função decorativa. Na avaliação de Maristela Tristão, o trabalho do artista representa um resgate da nobreza e do prestígio da tapeçaria tradicional.
Com forte desenvolvimento artístico desde a Idade Média, a tapeçaria ganhou novas formas de expressão ao longo dos séculos. Na produção contemporânea de Luiz Chaves, ela assume características tridimensionais e escultóricas, mantendo o diálogo com culturas tradicionais e com as manifestações artísticas dos povos originários.
O artista brasileiro pesquisa elementos do folclore afro-brasileiro e indígena, incorporando também referências visuais relacionadas às culturas maia, asteca e inca. Formas, cores e texturas transformam-se em narrativas sobre identidade, memória e pertencimento.
Como a tapeçaria de Luiz Chaves dialoga com a tradição?
A tapeçaria de Luiz Chaves preserva técnicas e conceitos tradicionais, mas também propõe novas maneiras de organizar as imagens. Entre suas características está a divisão da composição em blocos, recurso desenvolvido pelo artista em seu contato com o mestre Degois.
Esses blocos formam sequências visuais que contam histórias. As figuras não aparecem apenas como elementos isolados, mas como partes de uma narrativa construída por meio dos fios, das formas geométricas e das mudanças de tonalidade.
Em uma de suas obras monumentais, árvores, pássaros e borboletas integram a composição. Os pássaros aparecem como frutos, enquanto as borboletas assumem a função visual de folhagens. O resultado é uma imagem lúdica, imaginativa e marcada pela liberdade de interpretação.
Cultura afro-brasileira e indígena nas obras
As referências à cultura afro-brasileira e indígena ocupam posição central na produção do artista. Personagens, símbolos e elementos da natureza aparecem combinados em cenas que valorizam a diversidade cultural brasileira.
A professora, pedagoga e cantora Macaé Evaristo, apresentada no texto como defensora dos Direitos Humanos e da Cidadania, aparece rodeada por imagens associadas à temática feminina afro-brasileira e indígena.
Essas representações também estão presentes em outras obras de Chaves. No artigo assinado pelo jornalista Rogério Zola Santiago, o artista é apresentado, em 2026, como o “tapeceiro maior de Minas Gerais”, reconhecimento relacionado à amplitude e à identidade de sua produção.
Natureza e consciência ecológica
A flora e a fauna são elementos recorrentes na tapeçaria de Luiz Chaves. Rios, lagos, riachos, árvores e animais compõem murais nos quais a natureza aparece de maneira exuberante, mas também como motivo de reflexão.
As paisagens representadas pelo artista remetem a ambientes naturais que, segundo o autor, atualmente “pedem socorro”. Dessa forma, a dimensão estética das obras se aproxima de uma mensagem de consciência ecológica e de preservação ambiental.
O trabalho de Chaves estabelece ainda um diálogo artístico com seu mestre Degois e com a tapeceira Marlene Trindade. Ao combinar figuração, simbolismo e imaginação, o artista ultrapassa a representação literal e entra em um território marcado pelo surreal, pelo sonho e pela ambiguidade da quimera.
Arquitetura, religiosidade e imaginário popular
As obras também incorporam referências religiosas, arquitetônicas e urbanas. Entre os elementos mencionados estão os anjos, a Árvore do Éden e o Coreto da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
Essas imagens aproximam narrativas bíblicas, referências históricas e espaços presentes no imaginário mineiro. O passado e o presente aparecem conectados pela linguagem visual da tapeçaria, transformando símbolos conhecidos em novas experiências artísticas.
Ao reunir cultura ancestral, natureza, arquitetura e memória, Luiz Chaves amplia as possibilidades da tapeçaria contemporânea. Seus murais transformam fios e tecidos em narrativas sobre as origens culturais, os afetos e as diferentes formas de compreender o mundo.
Sobre o autor
Rogério Zola Santiago é jornalista formado pela PUC e mestre em Crítica pela Indiana University, nos Estados Unidos. O editor da publicação é Antônio Claret Guerra.
Foto Destaque: Obra de Luiz Chaves com formas geométricas, pássaros e borboletas





