“Navegar é preciso, viver não é preciso.” A célebre frase emprestada do general romano Pompeu e eternizada pelo poeta português Fernando Pessoa ganha vida cada vez que nos lançamos ao mar. Para mim, mais do que uma simples citação, ela representa a oportunidade de viver um cruzeiro transatlântico e percorrer, de outra forma e em outro tempo, trajetórias que nossos ancestrais fizeram no passado.
Ao lado da minha esposa, Zulma, tenho vivido experiências memoráveis em travessias entre a Europa e o Brasil. São viagens em que o deslocamento deixa de ser apenas uma etapa das férias e passa a fazer parte da própria experiência.
Cruzeiro transatlântico une viagem e contemplação
Atravessar o Oceano Atlântico em uma jornada marítima tem um ritmo muito diferente daquele encontrado nos roteiros convencionais. Para quem gosta de viajar sem pressa, a travessia rumo ao Brasil durante o outono europeu permite acompanhar gradualmente a mudança de clima, paisagem e cultura.
Em um de nossos últimos roteiros, embarcamos em Barcelona. Aos poucos, deixamos para trás as temperaturas mais baixas da Europa e seguimos em direção ao sol e ao calor brasileiros, vivendo essa transformação no próprio ritmo do mar.
Sem aeroportos e com mais tempo para aproveitar
Uma das vantagens que mais valorizamos nesse tipo de viagem é evitar parte da rotina dos grandes aeroportos. Não há conexões aéreas durante o percurso, nem a necessidade de mudar constantemente de hospedagem. Depois do embarque, a cabine se torna nossa referência durante toda a travessia.
Para nós, isso também significa mais liberdade com a bagagem. É possível, por exemplo, trazer alguns dos vinhos que apreciamos sem enfrentar as mesmas limitações de peso encontradas nas viagens aéreas.
Outro aspecto que considero interessante é a relação entre o que a viagem oferece e o custo total. Dependendo do roteiro, uma travessia pode reunir transporte, hospedagem, alimentação e entretenimento em uma única experiência.
Além disso, em nossas viagens encontramos uma atmosfera mais tranquila do que aquela normalmente percebida nas temporadas de maior movimento. Os dias em alto-mar ajudam a desacelerar e permitem aproveitar o navio sem a sensação permanente de correr para o próximo compromisso.
Uma rota entre diferentes países e culturas
O roteiro que fizemos a partir de Barcelona reuniu destinos europeus, africanos e brasileiros antes da chegada a Santos. Cada escala acrescentou uma experiência diferente à travessia.
- Espanha e França: Barcelona e Cannes, na Côte d’Azur.
- Itália: Gênova e Civitavecchia, porto utilizado como acesso a Roma.
- Ilhas e Norte da África: Palma de Maiorca, Casablanca, no Marrocos, e Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias.
- Brasil: Salvador, Ilhéus, Rio de Janeiro e, por fim, Santos.
Palma de Maiorca teve ainda um significado particular para mim por ser a terra de Rafael Nadal, um dos meus grandes ídolos.
Os dias em alto-mar também fazem parte da viagem
Para casais que gostam de viajar com conforto, os dias de navegação podem ser tão importantes quanto as escalas. É quando o tempo parece desacelerar e surgem oportunidades para contemplar o pôr do sol, jantar com calma, assistir a espetáculos ou simplesmente acompanhar o oceano durante horas.
Essa é uma das razões pelas quais considero a travessia transatlântica diferente de outras formas de viajar. O objetivo não é apenas sair do ponto A e chegar ao ponto B. O percurso passa a ser uma das principais atrações.
Na fase atual de nossas vidas, com mais de 60 anos, dois filhos independentes e casados e agora com a chegada do nosso netinho Antônio, Zulma e eu estamos aproveitando um momento muito especial. Para nós, essas viagens representam tempo compartilhado e experiências que permanecem na memória.
Marcio Cunha





