Por Amina Welten Guerra e Rui Badaró
A hospitalidade hackeada no turismo coloca em debate o uso de sistemas automatizados na análise de viajantes e nas autorizações de entrada em diferentes países. A discussão parte de uma situação cada vez mais associada às fronteiras digitais: decisões tomadas a partir de dados e índices de risco, com pouca ou nenhuma interação humana.
Imagine planejar uma viagem — passagens, hotel e roteiro — e descobrir que a autorização de entrada foi negada sem uma explicação clara. Não por decisão direta de um cônsul ou agente de fronteira, mas após a análise automatizada de informações pessoais. Para os autores, esse cenário modifica uma das bases históricas do turismo: a hospitalidade.
Hospitalidade hackeada no turismo e as novas fronteiras
A hospitalidade é apresentada no artigo como um valor ligado ao ato de receber o estrangeiro, abrir a porta e proporcionar acolhimento. Em Minas Gerais, essa relação é associada à própria cultura e ao modo de receber visitantes.
Ao mesmo tempo, sistemas eletrônicos de autorização e triagem de viajantes ganham espaço nas fronteiras. O texto cita a implantação do ETIAS pela União Europeia e os mecanismos adotados pelo Reino Unido, Estados Unidos e outros países como exemplos dessa transformação.
Na análise dos autores, o viajante passa a ser tratado também como um perfil de risco, submetido ao cruzamento e à avaliação automatizada de informações. Isso levanta questões sobre transparência, possibilidade de contestação e participação humana nas decisões.
Conceito de hospitalidade hackeada
O conceito de “hospitalidade hackeada” foi cunhado por Rui Badaró em sua pesquisa de pós-doutoramento na Universidade de Coimbra. A expressão é utilizada para descrever a subversão da hospitalidade como categoria jurídica por sistemas automatizados de controle da mobilidade.
Segundo a reflexão apresentada, dois turistas com o mesmo destino e intenções semelhantes podem enfrentar tratamentos diferentes de acordo com o passaporte e com os dados associados ao seu histórico de deslocamento.
Para os autores, essa realidade afeta especialmente cidadãos do chamado Sul Global e faz com que a fronteira deixe de começar apenas no aeroporto ou no posto de imigração, passando a existir também nos processos digitais que antecedem a viagem.
Impactos para viajantes e para o setor de turismo
Na avaliação apresentada no artigo, as consequências podem atingir diferentes agentes do turismo. Recusas automatizadas podem provocar cancelamentos de viagens, afetar agências e operadoras e gerar insegurança para viajantes que não recebem explicações suficientes sobre uma decisão.
A discussão, portanto, ultrapassa a tecnologia e alcança a própria relação entre turismo, mobilidade e acolhimento. Os autores defendem que destinos, empresas do trade turístico e viajantes participem desse debate e cobrem maior transparência nos sistemas utilizados pelas fronteiras.
Entre os pontos defendidos estão o direito à explicação e a possibilidade de revisão humana das decisões automatizadas.
Hospitalidade mineira como contraponto
O artigo utiliza Minas Gerais como contraponto à lógica baseada exclusivamente em índices de risco. A hospitalidade encontrada nas cidades históricas, fazendas e relações cotidianas é apresentada como uma experiência baseada em encontro, escuta e presença humana.
Para Amina Welten Guerra e Rui Badaró, preservar a hospitalidade como valor também significa discutir o futuro do turismo diante da crescente automatização das fronteiras.
A reflexão termina com uma questão central: em um mundo no qual sistemas tecnológicos participam cada vez mais das decisões sobre mobilidade, a porta deve se abrir para pessoas ou apenas para dados previamente aprovados?
A defesa dos autores é direta: a hospitalidade depende da dimensão humana e deve continuar fazendo parte das relações entre viajantes, destinos e sociedades.





