Mudanças climáticas já não afetam apenas o meio ambiente. Seus efeitos começam a modificar regulamentos esportivos, decisões econômicas, projetos de infraestrutura, normas financeiras e obrigações internacionais.
Um exemplo visível surgiu durante a Copa do Mundo de 2026. A FIFA determinou pausas obrigatórias de três minutos, por volta dos 22 minutos de cada tempo, em todas as partidas, independentemente da temperatura ou das condições meteorológicas. A entidade justificou a medida pela proteção dos atletas e pela igualdade de condições entre as equipes.
A decisão não foi apresentada oficialmente como uma política climática. Ainda assim, ela pode ser compreendida dentro de um movimento mais amplo: instituições precisam adaptar procedimentos diante de riscos associados ao calor, a eventos extremos e a outras transformações ambientais.
O que mudou nas pausas para hidratação?
As regras internacionais do futebol já permitiam interrupções médicas para hidratação e resfriamento. As pausas para bebidas normalmente não deveriam ultrapassar um minuto, enquanto as pausas para resfriamento poderiam durar entre 90 segundos e três minutos.
A novidade da Copa do Mundo de 2026 foi a aplicação sistemática da pausa de três minutos em todos os jogos. A interrupção deixou de depender exclusivamente da avaliação das condições climáticas de cada partida.
À primeira vista, essa mudança pode parecer apenas um detalhe da organização do torneio. Entretanto, ela demonstra como regras tradicionais podem ser revistas quando a saúde, a segurança e as condições ambientais passam a exigir novos padrões.
Mudanças climáticas afetam o comércio internacional
O esporte é apenas uma das áreas atingidas por esse processo de adaptação.
No comércio internacional, critérios ambientais passaram a interferir diretamente no acesso a determinados mercados. A União Europeia colocou em funcionamento, em 1º de janeiro de 2026, a fase definitiva do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, conhecido pela sigla CBAM.
O mecanismo atribui um preço às emissões incorporadas na produção de determinados bens importados pela União Europeia. Inicialmente, alcança setores como:
- ferro e aço;
- alumínio;
- cimento;
- fertilizantes;
- eletricidade;
- hidrogênio.
Os importadores precisam declarar as emissões associadas aos produtos abrangidos e cumprir as obrigações previstas pelo sistema europeu.
Na prática, empresas exportadoras passam a considerar as emissões de carbono não apenas por compromisso ambiental, mas também porque elas podem afetar custos, competitividade e presença no mercado internacional.
Riscos climáticos entram no sistema financeiro
As mudanças climáticas também passaram a fazer parte das avaliações realizadas por bancos, investidores, seguradoras e autoridades reguladoras.
Eventos extremos podem provocar perdas em propriedades, interrupções produtivas, desvalorização de ativos e dificuldades no pagamento de financiamentos. Mudanças regulatórias e tecnológicas também podem reduzir o valor de empresas dependentes de atividades com altas emissões.
Em 2025, o Comitê de Supervisão Bancária da Basileia publicou uma estrutura voluntária para a divulgação de riscos financeiros relacionados ao clima. O documento contempla informações quantitativas e qualitativas sobre a exposição das instituições financeiras.
Isso mostra que o risco climático deixou de ser tratado apenas como uma questão ambiental. Ele passou a integrar análises de crédito, investimentos, estabilidade financeira e continuidade dos negócios.
Como o clima muda projetos de infraestrutura?
Aeroportos, portos, rodovias, pontes e sistemas urbanos foram tradicionalmente projetados com base em registros históricos de temperatura, chuvas, ventos e níveis dos rios.
Esse modelo já não é suficiente em muitos casos. Projetos de longa duração precisam considerar cenários climáticos futuros, incluindo:
- ondas de calor mais frequentes;
- chuvas intensas;
- inundações;
- tempestades;
- elevação do nível do mar;
- períodos prolongados de seca.
A Organização da Aviação Civil Internacional destaca que enchentes, tempestades e aumento do nível do mar representam riscos para pistas, terminais e outros sistemas aeroportuários. Entre as respostas possíveis estão o reforço de estruturas, o uso de materiais mais resistentes e a adoção de soluções flexíveis de infraestrutura.
O planejamento deixa, portanto, de perguntar apenas como o clima se comportou no passado. A questão passa a ser como uma obra deverá funcionar nas condições previstas para as próximas décadas.
Qual é o impacto no Direito Internacional?
O Direito Internacional também está sendo transformado pelo debate climático.
Em 2024, o Tribunal Internacional do Direito do Mar reconheceu obrigações dos Estados relacionadas à proteção do ambiente marinho contra os efeitos das emissões de gases de efeito estufa, das mudanças climáticas e da acidificação dos oceanos.
Em julho de 2025, a Corte Internacional de Justiça apresentou seu parecer consultivo sobre as obrigações dos Estados diante das mudanças climáticas. O processo levou o tema ao centro das discussões sobre responsabilidade internacional, cooperação entre países e proteção das populações afetadas.
Questões antes tratadas principalmente como políticas ambientais passaram a dialogar diretamente com direitos humanos, desenvolvimento econômico, segurança global e responsabilidade dos governos.
Adaptação às mudanças climáticas virou regra
A adaptação às mudanças climáticas deixou de ser apenas uma decisão voluntária ou uma política restrita aos órgãos ambientais.
Seus efeitos podem ser observados em diferentes áreas:
- regulamentos esportivos são atualizados;
- contratos passam a distribuir riscos ambientais;
- empresas reveem cadeias de produção;
- bancos avaliam vulnerabilidades climáticas;
- obras são projetadas para eventos extremos;
- tribunais analisam obrigações dos Estados;
- governos reformulam políticas públicas.
A pausa para hidratação em uma partida de futebol pode parecer um acontecimento trivial. Porém, ela simboliza um processo muito maior: a realidade ambiental começa a modificar concretamente as regras que organizam a sociedade.
Mais do que alterar temperaturas e padrões de chuva, as mudanças climáticas estão transformando normas, instituições e decisões no esporte, na economia, no Direito e nas relações internacionais.
Compreender esse movimento é essencial para que governos, empresas e cidadãos se preparem para um mundo no qual a adaptação deixará de ser exceção e passará a fazer parte das regras do jogo.
Sobre a autora
Dra. Amina Welten Guerra é doutora cum laude em Direito Internacional e graduada em Direito pela Universidade de Bolonha, na Itália. É conselheira da Sociedade Brasileira de Direito Internacional, presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB Minas Gerais e diretora de Assuntos Governamentais e Institucionais da Câmara Portuguesa de Comércio em Minas Gerais. Atua como advogada no Brasil e em Portugal.
Foto Destaque: Jogadores fazem pausa para hidratação durante partida de futebol sob calor intenso / Crédito: Imagem ilustrativa.





